19 de fevereiro de 2009

Mudo

No momento dos reclames de sua novela diária, minha avó opta por colocar mudo na televisão. E correta está ela, que se livra da gritaria a que somos submetidos nos intervalos da tevê aberta. É verdade que muitos dos programas da tevê aberta merecem também não ser escutados, como as próprias telenovelas. Entretanto, escutamo-los por opção, o que não acontece no caso das propagandas. Com a exceção de uma ou outra que aparenta inteligência em sua elaboração, chegando a nos arrancar alguns risos ao assistir a elas, nenhum de nós verdadeiramente deseja assistir às propagandas da televisão. Mas são raros os casos como o de minha avó, que emudece seus estardalhaços. As restantes pessoas, como eu, aliás, permanecem com o áudio da televisão funcionando e, quando menos esperam, com algo ao seu redor irritam-se repentinamente, como quando tentam conversar com um parente, em outro cômodo da casa, e não conseguem escutá-lo. É a propaganda que, berrando aos nossos ouvidos, atrapalha tudo e ainda embute em nossas cabeças os mais diversos produtos dos quais não necessitamos a compra.

Confesso que tenho tentado, ultimamente, me adaptar ao costume de minha avó. Mas como estou ainda em processo de adaptação a ele, por vezes esqueço colocá-lo em prática e noto meu esquecimento somente quando me irrito com a barulheira dos reclames. Existem alguns que são irritantes em especial. “QUER PAGAR QUANTO?!” é a frase que imortalizou a chatice das propagandas de uma loja, a qual não cito o nome, mas deve identificá-la já meu leitor.

Ao ouvir as propagandas dessa loja, invariavelmente desejo colocar “mudo” na televisão. Se soubesse, aliás, o momento em que entrariam no ar, apertaria eu o botão de antemão. Mas como não o posso saber, o estardalhaço com que já iniciam seus recados é que me faz pular do sofá e procurar o controle-remoto com atraso e desespero. Quando achado este, procuro o “mudo”, mas, nessas situações, é evidente, tardo a achá-lo. Travo, assim, praticamente um duelo com as propagandas dessa loja. Tento não escutá-las, boicotando-as, enquanto elas tentam fazer-se ouvidas por mim. O pior e o que verdadeiramente mais me irrita é perder, quase sempre, esse duelo. A dificuldade em vencê-lo também é evidente, pois o recado principal das propagandas dessa loja é embutido logo nos primeiros três segundos de seus reclames. Assim, somos por eles invadidos contra a nossa vontade, como se levássemos um tiro na mente: “ÉÉÉÉÉ SÓ AMANHÃ GELADEIRA NAS CASAS....” MUDO. É sempre tarde demais.

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