7 de fevereiro de 2009

Jogando bola

Carregava em si cada um dos vinte e dois jogadores da partida, além dos reservas, se necessário fosse. Para a direita, corria sendo a Ponte Preta. Para a esquerda, corria pela equipe adversária, amolecendo mais o corpo. Passava a bola a si próprio, fazia lançamentos, arriscava cabeceios e bicicletas e, no final, a Ponte acabava por vencer, fosse seu adversário o Milan, o Manchester United ou o São Paulo. O garoto de seis anos negava a sua parcialidade, contudo. Seus jogos eram apitados por árbitros reconhecidos no Brasil, dizia, e que não permitiam conduta manipuladora por parte dele, embora ele próprio fosse o árbitro da partida. Ele era tudo, aliás, em seu estádio improvisado no quintal da casa. Técnicos, massagistas, bandeirinhas e médicos. As torcidas também, dizendo nomes feios em coro.

Se desejasse ser novamente a Ponte Preta, quando correndo à esquerda, roubava a bola de si próprio ou iniciava o segundo tempo. Marcava um gol. “Goooooooooooooooooool”, narrava, inflamando-se no prolongamento do “oooo”, fosse um gol campineiro. Quando de voz cansada, ele, o narrador da partida, passava a palavra aos comentaristas do jogo que, falando, davam descanso ao locutor. Sendo também o garoto os dois comentaristas do duelo, acabava por somente repousar as vozes dos outros, mas nunca verdadeiramente a sua, o que lhe rendia uma narração peculiar. Cortava palavras no meio, inventava expressões, onomatopéias e perdia o ar. Jogava então os braços e os pés de um mesmo lado do corpo para cima e caía no chão, como se seu gesto fizesse as vezes de sua voz, com emoção. Seu desempenho agradava a si próprio e ao público do estádio, incorporado em seu corpo franzino e suado. Feio somente era quando um chute, do adversário, é claro, ultrapassava os limites de seu estádio, levando a bola aos estádios vizinhos. “Havaianas, as legímias!”, dizia nesses momentos, tropeçando na pronúncia do merchandising.

Não lhe era penoso ter de ir buscar a bola nos vizinhos ou submeter seu pequenino corpo às peripécias de sua imaginação. Mas antes que pensem o contrário os velhos que se esquecem de suas infâncias, o garoto cansava-se em certo momento da partida. De repente, muito de repente, cansava-se. Sua energia restante permitia somente, ainda, que marcasse o derradeiro gol de desempate ponte-pretano e encerrasse a partida. Comemorando, gritava com alegria, socava o ar sendo provisoriamente o Pelé e pulava em cima de si próprio, formando a pilha de jogadores, no chão, a festejar.

Sua última tarefa do dia, a de comemorar a vitória da Ponte Preta, encerrava-se. Sentava no centro do gramado, então, e abraçava suas pernas, colocando o queixo sobre os joelhos, exausto. Finalmente, as equipes que haviam duelado despediam-se e o Milan clamava pela revanche. “Só se marcar para amanhã”, dizia então a Ponte. “Eu aceito”, respondia o Milan. O garoto, já solitário, com a estranha sensação de ser somente si próprio, olhava para o céu de seu estádio e pensava que jogaria bola no dia seguinte, novamente. Dormir seria o tempo exato para que o refletor do estádio Moisés Lucarelli voltasse a subir, até que ficasse a pino, iluminando o local para mais um espetáculo.

4 comentários:

Daniel Serrano disse...

mas eh isso vida q segue.

brincadeira; lindíssimo o texto, coisa mesmo das bem emocionantes.

Marco Antônio de Araújo Bueno disse...

Mais um belo conto, Pedro! Tem lirismo suficiente para ser chamado de "proesia".Sobre o lamentável epis´dio daquela expulsão deretada pelo mesmo menino e a relação que vocÇe fez com o tempo verbal "Prsente Onírico" (do verso do Chico Buarque "Agora eu era o herói", vale lembrar o quecostuma acontecer quando alhuém nos conta um sonho e começa assim: "Diz que eu estava..." Quem é esse terceiro que diz? O nosso Inconsciente desconhece a idéia de tempo; além disso, narramos os sonhos na terceira pessoa porque, neles, mais do que conduzir as ações, somos poe elas conduzidos.Comento esteaspécto a propósito de uma certa profunditade que se acha, também, embutida no conto. Muito parabéns!

s3rr@nense noticias disse...

vo acerta quem é essa pessoa.
tadificil vou oensar um pouco??? aaaaammmmmmmmmmmmmmmm
acho que sou eu estou certo

Larissa disse...

Texto lindo. Que leva-me às minhas próprias memórias de ver meu irmão "jogando jogo" (como ele dizia)sozinho, em seu quarto. Mas o dele era aquele de estender o tapete verde no chão e posicionar e reposicionar cada jogador de plástico, até achar o pé e o ângulo perfeitos.