10 de fevereiro de 2009

Imaginação

A pequena história que escrevi em minha última postagem foi inspirada em meu irmão mais novo. Já há muito tempo ele me presenteia, nos fundos de minha casa, com espetaculares apresentações de seu futebol imaginário, às quais assisto escondido, para não inibir a expressão dos múltiplos papéis assumidos por ele nessas circunstâncias. Apaixonado por futebol, uma bola e um gramado foram sempre para ele um verdadeiro palco.  Hoje, já com dez anos, são de fato mais raras e menos teatrais suas performances nos fundos de casa, embora ainda sejam interessantes. Certa vez, aliás, e esta história não posso deixar de contar, quando com seis ou sete anos de idade, saiu emburrado de uma de suas partidas de fundo de quintal, nas quais se fazia onipresente em todos os personagens do duelo. Estava bravo de verdade e explicou com indignação o motivo da braveza, à família: O árbitro me expulsou, ora!.
São fatos como esse meu irmão ter expulsado a si próprio — que me fazem ter um profundo encanto pelo universo imaginativo das crianças. Encanta-me a maneira como elas assumem, brincando, diversos papéis em seus corpos pequeninos, além da avidez com que interpretam os personagens por elas criados. Nesse contexto, ocorre-me a música “João e Maria” — “Agora eu era o herói...” — que tem melodia de Sivuca letrada por Chico Buarque. Na letra da música, Chico homenageia a maneira como a criança traduz sua doce imaginação em palavras. O pequenino anônimo da canção anuncia a alternância dos diversos papéis que assume através da expressão “agora eu era”, cotidianamente usada por crianças brasileiras para o mesmo fim.
Esta expressão, recorrente em tantas bocas infantis Brasil afora, ganhou, por Chico Buarque, status de tempo verbal. Para ele, trata-se do “passado onírico”. E é formidável. Somente o passado onírico é capaz, pela contradição entre o ‘agora’ e o pretérito imperfeito, de emprestar ao tempo presente a concretude que possui o tempo passado. Não existe tempo verbal melhor para expressar a crença inabalável que tem uma criança no que decorre de sua própria imaginação. 

2 comentários:

Miriam Salles disse...

Super Pedro!
Mais um post que gostei e compartilhei! E me lembrei do Gabriel, aos 4 ou 5 anos, me dando todas as informações dos jogos da nossa amada Ponte Preta! Ele continua ponte-pretano ou você conseguiu que ele virasse são-paulino?
bjo

José Lima Jr. disse...

gRANDE Pedrinho!

Seu texto me parece lúcido, lúdico e lírico. Tem agudeza, elegância e sensibilidade. Sobre a imaginação gabrielina emerge sua poesia pétrea a estilhaçar indiferenças vítreas, arejando a magia de ressucitarmos a criança que apascentamos pela quaresma do ontem.