20 de fevereiro de 2009

CPF na nota, senhor?

Comprei um livro numa livraria de um shopping e a atendente do caixa foi logo o colocando em uma sacola plástica. Recusei a sacolinha, mas a moça, praticamente atalhando minha recusa, disse: “Não, não, imagina, eu faço questão”.  Percebi então que a mulher provavelmente não compreendia minhas intenções. Recusava a sacola em coerência às minhas crenças pessoais, e não por fazer cerimônia para aceitá-la diante de sua pessoa, como acredito que pensava. E, de fato, assim devia pensar, pois, após minha segunda recusa pela sacola, voltou a insistir para que eu a levasse, como uma tia insistindo para seu sobrinho comer um bolo: “Imagina! Andar com livro sem sacola por aí! Não precisa não, moço, pode levar”. Só então curvei meu tronco em direção a ela e, beirando a rispidez, disse um derradeiro “não”, o qual, deve ter pensado, confirmou-me não como pessoa cerimoniosa, mas má educada mesmo.

Recusar sacolas plásticas, aliás, é algo que muito me diverte. As atendentes e os atendentes de caixas, entretanto, não conseguem entender como uma pessoa é capaz de agir dessa maneira, e o caso que relatei acima exemplifica isso. Quando o que ocorre é a dificuldade de compreensão da minha atitude, mantenho meu bom-humor frente a eles — o “não” grosseiro relatado é fictício. Mas quando as pessoas do caixa me obrigam a levar as sacolas, alegando que estas servem como “comprovante” de minha compra, irrito-me. Irrito-me pois acho absurdo ser obrigado a levar uma sacola plástica para não ser barrado pelos seguranças ao sair de uma loja.

Sucedeu comigo irritação dessa anteontem. Comprei um livro e, ao recusar a sacola plástica com que logo o revestia a atendente do caixa, dela ouvi em voz monótona: “Leva se não os seguranças vão te parar”. “Não, não quero mesmo a sacola, moça, obrigado”, respondi. Mas ela insistiu: “Como que você vai provar que comprou o livro, então?”.  “Nota fiscal, não?”, respondi e ela se convenceu, embora chateada em ter de emitir a nota fiscal, atitude que seu patrão severamente reprova. Finalmente conquistado meu direito de não levar a sacola plástica, fui embora da livraria. Mas, ao sair dela, resolvi provocativamente passar ao lado do segurança da loja. Exibi bem o livro levado à mão, assoviei e me locomovi em passos ligeiros, simulando trejeitos de um verdadeiro ladrão. Olhando para o chão, procurei interpretar a figura de um jovem a furtar um livro, quase um cleptomaníaco. E torci que torci para que o segurança me barrasse, com a cara chata que têm os seguranças, e dissesse: “E esse livro aí, moleque?”. Mostraria então minha nota fiscal e, sem dizer tchau, iria embora, soberbo. É divertido ser ecológico, embora o segurança não tenha me barrado.

2 comentários:

katia disse...

É por essas e outras que já chego admitindo: "Não, obrigada. Sou ecochata". E também escondo, deixando à mostra, livros, CDs e DVDs qdo passo pelo segurança.
Pra variar, belo post!

Zé da Banca disse...

Depois de muito andar por este mundo novo (para mim pelo menos), encontrei um blogueiro que sabe escrever! Parabéns pelo post.