27 de fevereiro de 2009

Posto a minha contribuição à campanha "Diga não ao bloqueio de blogs". 


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26 de fevereiro de 2009

Paulo Freire

Tinha eu ainda idade-de-quarta-série quando minha mãe encasquetou de me estimular à leitura. O estímulo aos livros era de fato importante, mas sua investida não foi lá muito bem sucedida. Acontece que sou de família unida e razoavelmente grande e, como não poderia ser diferente numa família dessas, o recém-elaborado anseio de minha mãe rapidamente se irradiou aos demais familiares e, em um bem-sucedido telefone-sem-fio, chegou aos ouvidos de meu tio. Este, por sua vez, teve uma ideia: dar um livro de presente de aniversário ao Pedro.

Desse tio que muito me era — e ainda é — próximo, recebi então o livro O Senhor dos Anéis como presente de aniversário. Me senti orgulhoso, lembro até hoje da dedicatória por ele escrita na contracapa do livro, e me agradava empunhá-lo por aí, como se fosse já um leitor voraz. Mas o livro em si não chegou a me agradar. Tinha suas quase quatrocentas páginas, letras pequenas e enredo que achei chato, muito chato. Interrompi sua leitura na página vinte.

Somente há poucos anos, quando tinha já idade-de-ensino-médio, peguei gosto pela leitura. Aconteceu de cair em minhas mãos o livro Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire. Iniciei lendo-o descrente de meu próprio gosto pelos livros — já me conformava como um jovem que não o tinha — e acabei por ele me apaixonando. Não mais parei de ler. 

Tenho, assim, um certo carinho pela figura de Paulo Freire. E não posso deixar de expressar minha indignação frente a uma notícia que li na coluna “Rosa dos Ventos”, da revista Carta Capital. Por motivo de ações de integrantes do Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul, uma escola do Movimento Sem-Terra na cidade de Sarandi terá de ser fechada. Entre as acusações levadas em conta pelos promotores, há a de que o material da escola segue “a linha pedagógica de Paulo Freire”.

Indignado, encerro minha postagem com as palavras de quem tomei a liberdade de ter como padrinho de leitura, carinhosamente. As indignadas palavras de Paulo Freire em carta reunida no livro Pedagogia da Indignação: “A eles e elas, sem-terra, a seu inconformismo, à sua determinação de ajudar a democratização deste país devemos mais do às vezes podemos pensar. E que bom seria para a ampliação e consolidação de nossa democracia, sobretudo para sua autenticidade, se outras marchas se seguissem à sua. A marcha dos desempregados, dos injustiçados, dos que protestam contra a impunidade, dos que clamam contra a violência, contra a mentira e o desrespeito à coisa pública. A marcha dos sem-teto, dos sem-escola, dos sem-hospital, dos renegados. A marcha esperançosa dos que sabem que mudar é possível”.

O desenho acima leva a assinatura de seu autor.

22 de fevereiro de 2009

Alguns políticos

Assessores de marketing. A maioria dos políticos de nosso país possui ao menos um deles. E, também na maioria dos casos, são eles que produzem as imagens, que serão passadas ao público, desses políticos. Tratando-se praticamente de uma regra nesse meio, não faz grande sentido perdemos tempo acusando somente uma ou outra imagem produzida, enquanto, na verdade, qualquer produção de imagem merece ser criticada, por ter como objetivo único a obtenção de votos nas eleições. Como exemplo, podemos citar o consagrado “Lulinha paz e amor”, incorporado por Lula a partir da campanha presidencial de 2002, a Dilma Roussef como a “mãe do PAC”, etc.

Mas se cito duas figuras petistas é para que depois não me venham dizer que só enxergo a podridão do lado tucano. Pois quero falar sobre dois casos do PSDB aqui de São Paulo: José Serra e Geraldo Alckmin. Como mesmo já disse, toda produção de imagem pública é reprovável. Entretanto, não posso esconder de meu leitor que com algumas delas implico especialmente, como com a dos dois.

A imagem que de Serra e Alckmin nos é passada nas propagandas do PSDB — ou seja, a que eles próprios desejam ter para si — é a mesma divulgada pela maioria dos grandes veículos de comunicação brasileiros. Serra e Alckmin são extraordinariamente trabalhadores, têm visão de futuro e os melhores planos para o nosso país. São pessoas sérias e honestas, com vocação para a política por serem predestinados a “cuidarem de pessoas”. Possuem eficiência e pragmatismo no governo, não tiram os pés do chão e  nunca é demais lembrar  trabalham, trabalham e trabalham por São Paulo. São, em suma, exímios administradores.

Vê-se claramente a clássica figura do paulistano que administra a “locomotiva do Brasil” com competência. E grande parte da imprensa faz coro na divulgação dessa imagem incorporada pelos dois. Imagem falsa que acaba por velar o que, de fato, o PSDB vem fazendo em São Paulo desde 1995. O que os tucanos fazem de nossa segurança pública, de nossa saúde e, sobretudo, de nossa rede pública de educação. 

Não me lembro de onde retirei a charge acima, que leva a assinatura de seu autor. 

20 de fevereiro de 2009

CPF na nota, senhor?

Comprei um livro numa livraria de um shopping e a atendente do caixa foi logo o colocando em uma sacola plástica. Recusei a sacolinha, mas a moça, praticamente atalhando minha recusa, disse: “Não, não, imagina, eu faço questão”.  Percebi então que a mulher provavelmente não compreendia minhas intenções. Recusava a sacola em coerência às minhas crenças pessoais, e não por fazer cerimônia para aceitá-la diante de sua pessoa, como acredito que pensava. E, de fato, assim devia pensar, pois, após minha segunda recusa pela sacola, voltou a insistir para que eu a levasse, como uma tia insistindo para seu sobrinho comer um bolo: “Imagina! Andar com livro sem sacola por aí! Não precisa não, moço, pode levar”. Só então curvei meu tronco em direção a ela e, beirando a rispidez, disse um derradeiro “não”, o qual, deve ter pensado, confirmou-me não como pessoa cerimoniosa, mas má educada mesmo.

Recusar sacolas plásticas, aliás, é algo que muito me diverte. As atendentes e os atendentes de caixas, entretanto, não conseguem entender como uma pessoa é capaz de agir dessa maneira, e o caso que relatei acima exemplifica isso. Quando o que ocorre é a dificuldade de compreensão da minha atitude, mantenho meu bom-humor frente a eles — o “não” grosseiro relatado é fictício. Mas quando as pessoas do caixa me obrigam a levar as sacolas, alegando que estas servem como “comprovante” de minha compra, irrito-me. Irrito-me pois acho absurdo ser obrigado a levar uma sacola plástica para não ser barrado pelos seguranças ao sair de uma loja.

Sucedeu comigo irritação dessa anteontem. Comprei um livro e, ao recusar a sacola plástica com que logo o revestia a atendente do caixa, dela ouvi em voz monótona: “Leva se não os seguranças vão te parar”. “Não, não quero mesmo a sacola, moça, obrigado”, respondi. Mas ela insistiu: “Como que você vai provar que comprou o livro, então?”.  “Nota fiscal, não?”, respondi e ela se convenceu, embora chateada em ter de emitir a nota fiscal, atitude que seu patrão severamente reprova. Finalmente conquistado meu direito de não levar a sacola plástica, fui embora da livraria. Mas, ao sair dela, resolvi provocativamente passar ao lado do segurança da loja. Exibi bem o livro levado à mão, assoviei e me locomovi em passos ligeiros, simulando trejeitos de um verdadeiro ladrão. Olhando para o chão, procurei interpretar a figura de um jovem a furtar um livro, quase um cleptomaníaco. E torci que torci para que o segurança me barrasse, com a cara chata que têm os seguranças, e dissesse: “E esse livro aí, moleque?”. Mostraria então minha nota fiscal e, sem dizer tchau, iria embora, soberbo. É divertido ser ecológico, embora o segurança não tenha me barrado.

19 de fevereiro de 2009

Mudo

No momento dos reclames de sua novela diária, minha avó opta por colocar mudo na televisão. E correta está ela, que se livra da gritaria a que somos submetidos nos intervalos da tevê aberta. É verdade que muitos dos programas da tevê aberta merecem também não ser escutados, como as próprias telenovelas. Entretanto, escutamo-los por opção, o que não acontece no caso das propagandas. Com a exceção de uma ou outra que aparenta inteligência em sua elaboração, chegando a nos arrancar alguns risos ao assistir a elas, nenhum de nós verdadeiramente deseja assistir às propagandas da televisão. Mas são raros os casos como o de minha avó, que emudece seus estardalhaços. As restantes pessoas, como eu, aliás, permanecem com o áudio da televisão funcionando e, quando menos esperam, com algo ao seu redor irritam-se repentinamente, como quando tentam conversar com um parente, em outro cômodo da casa, e não conseguem escutá-lo. É a propaganda que, berrando aos nossos ouvidos, atrapalha tudo e ainda embute em nossas cabeças os mais diversos produtos dos quais não necessitamos a compra.

Confesso que tenho tentado, ultimamente, me adaptar ao costume de minha avó. Mas como estou ainda em processo de adaptação a ele, por vezes esqueço colocá-lo em prática e noto meu esquecimento somente quando me irrito com a barulheira dos reclames. Existem alguns que são irritantes em especial. “QUER PAGAR QUANTO?!” é a frase que imortalizou a chatice das propagandas de uma loja, a qual não cito o nome, mas deve identificá-la já meu leitor.

Ao ouvir as propagandas dessa loja, invariavelmente desejo colocar “mudo” na televisão. Se soubesse, aliás, o momento em que entrariam no ar, apertaria eu o botão de antemão. Mas como não o posso saber, o estardalhaço com que já iniciam seus recados é que me faz pular do sofá e procurar o controle-remoto com atraso e desespero. Quando achado este, procuro o “mudo”, mas, nessas situações, é evidente, tardo a achá-lo. Travo, assim, praticamente um duelo com as propagandas dessa loja. Tento não escutá-las, boicotando-as, enquanto elas tentam fazer-se ouvidas por mim. O pior e o que verdadeiramente mais me irrita é perder, quase sempre, esse duelo. A dificuldade em vencê-lo também é evidente, pois o recado principal das propagandas dessa loja é embutido logo nos primeiros três segundos de seus reclames. Assim, somos por eles invadidos contra a nossa vontade, como se levássemos um tiro na mente: “ÉÉÉÉÉ SÓ AMANHÃ GELADEIRA NAS CASAS....” MUDO. É sempre tarde demais.

14 de fevereiro de 2009

O zíper

Esperava pela abertura do portão de um prédio público em que prestaria concurso. O movimento em frente ao local era pequeno, apesar do dia bonito que fazia. Isso para mim evidenciava a pouca concorrência, algo muito bom. 

Eis que chegou um ônibus com placa de Jundiaí. Sentado à mureta em frente ao prédio, torci, por alguns instantes, para que dele descessem somente um ou dois concorrentes, ou quem sabe apenas uma mulher que traria um sanduíche à filha. Mas os que prestam concurso público não nasceram com sorte e, do ônibus, para minha decepção, dezenas de pessoas desceram com cara de azaradas. Passei a acompanhá-las com os olhos.

Foi nesse instante que reparei em uma mulher que aparentava ter já seus 34 anos de vida sem sorte. Como beleza não possuía, olhava-a mais para desenvolver minha autoconfiança para a prova, mas seus trejeitos também me chamaram a atenção. Provavelmente por estar bastante nervosa, do ônibus saiu em passos curtos e rápidos, que se assemelhavam a pequenos pulos. Simultaneamente, secava sua testa úmida, apalpava a coxa e desbravava sua bolsa, bastante grande, talvez em busca do RG. Com passos ligeiros pela calçada em frente ao prédio, cruzou caminho com um ambulante que vendia garrafas d’água. Passou reto por ele, mas voltou atrás, em atitude de pessoa ansiosa, e pediu uma água. Antes de entregá-la, o ambulante, com voz de quem pergunta “você não tem trocado?”, avisou à mulher: “Seu zíper está aberto”. Era o zíper de sua calça jeans.

Antes mesmo de saber de seu zíper aberto, já havia eu, confesso, duvidado de como uma pessoa conseguia prestar um concurso público com calça tamanhamente colada ao corpo. Agora, vestido em meu bermudão e sem cueca, previa também a dificuldade em se levantar o zíper da calça daquela mulher, o que seria quase como fechar novamente uma lata metálica de sardinha. 

Além do grude em que estava sua calça e do calor e sol que fazia no local, o zíper parecia não subir, por escorregar de suas mãos ou mesmo emperrar na calça. Minha previsão se confirmava e, por um instante, desejei levantar de meu lugar e aconselhá-la a acalmar-se, esquecendo que se travava de uma concorrente. Se respirasse fundo e desistisse de operar a subida do zíper em tempo menor do que o exigido por um emperrado, conseguiria em breve ocultar sua calcinha e livrar-se de mais constrangimento. Mas aquela mulher, que já era suficientemente nervosa para prestar um concurso público, afobava-se ainda mais por ter, no mesmo dia de sua prova, o zíper de sua calça aberto e emperrado, em frente a grande público. Já esquecida de sua água, começou a quicar em seu próprio lugar, encolhendo a barriga e puxando o zíper para cima com força. Mas ele teimava em não subir e a mulher, por sua vez, teimava em, cada vez mais, colar bem suas pernas uma à outra — o que fazia sua calça jeans assemelhar-se a um saco de batatas — e tentar puxar o zíper para cima. De tanto juntar as pernas uma à outra, encolher a barriga prendendo o ar e, para isso, morder o lábio inferior de sua boca; de tanto querer ocultar sua calcinha e, para isso, quicar, quicar, quicar em seu próprio lugar, encrespando ainda mais o seu cabelo, sua bolsa — o verdadeiro saco de batatas —, antes pendurada ao ombro, caiu no chão.  

A mulher finalmente parou, descabelada. Corou as bochechas, lacrimejou os olhos e, em frente a tantos concorrentes, acocorou-se para pegar sua bolsa. Pude prever, por sua feição desolada, que, naquele momento, a mulher seria capaz de desistir de sua prova, de seu emprego e voltar para sua casa. Teria eu uma concorrente a menos. Mas, ainda de cócoras, após devolver seu RG à bolsa, a mulher finalmente conseguiu fechar o seu zíper, e quem desistiu do concurso público fui eu.

10 de fevereiro de 2009

Imaginação

A pequena história que escrevi em minha última postagem foi inspirada em meu irmão mais novo. Já há muito tempo ele me presenteia, nos fundos de minha casa, com espetaculares apresentações de seu futebol imaginário, às quais assisto escondido, para não inibir a expressão dos múltiplos papéis assumidos por ele nessas circunstâncias. Apaixonado por futebol, uma bola e um gramado foram sempre para ele um verdadeiro palco.  Hoje, já com dez anos, são de fato mais raras e menos teatrais suas performances nos fundos de casa, embora ainda sejam interessantes. Certa vez, aliás, e esta história não posso deixar de contar, quando com seis ou sete anos de idade, saiu emburrado de uma de suas partidas de fundo de quintal, nas quais se fazia onipresente em todos os personagens do duelo. Estava bravo de verdade e explicou com indignação o motivo da braveza, à família: O árbitro me expulsou, ora!.
São fatos como esse meu irmão ter expulsado a si próprio — que me fazem ter um profundo encanto pelo universo imaginativo das crianças. Encanta-me a maneira como elas assumem, brincando, diversos papéis em seus corpos pequeninos, além da avidez com que interpretam os personagens por elas criados. Nesse contexto, ocorre-me a música “João e Maria” — “Agora eu era o herói...” — que tem melodia de Sivuca letrada por Chico Buarque. Na letra da música, Chico homenageia a maneira como a criança traduz sua doce imaginação em palavras. O pequenino anônimo da canção anuncia a alternância dos diversos papéis que assume através da expressão “agora eu era”, cotidianamente usada por crianças brasileiras para o mesmo fim.
Esta expressão, recorrente em tantas bocas infantis Brasil afora, ganhou, por Chico Buarque, status de tempo verbal. Para ele, trata-se do “passado onírico”. E é formidável. Somente o passado onírico é capaz, pela contradição entre o ‘agora’ e o pretérito imperfeito, de emprestar ao tempo presente a concretude que possui o tempo passado. Não existe tempo verbal melhor para expressar a crença inabalável que tem uma criança no que decorre de sua própria imaginação. 

7 de fevereiro de 2009

Jogando bola

Carregava em si cada um dos vinte e dois jogadores da partida, além dos reservas, se necessário fosse. Para a direita, corria sendo a Ponte Preta. Para a esquerda, corria pela equipe adversária, amolecendo mais o corpo. Passava a bola a si próprio, fazia lançamentos, arriscava cabeceios e bicicletas e, no final, a Ponte acabava por vencer, fosse seu adversário o Milan, o Manchester United ou o São Paulo. O garoto de seis anos negava a sua parcialidade, contudo. Seus jogos eram apitados por árbitros reconhecidos no Brasil, dizia, e que não permitiam conduta manipuladora por parte dele, embora ele próprio fosse o árbitro da partida. Ele era tudo, aliás, em seu estádio improvisado no quintal da casa. Técnicos, massagistas, bandeirinhas e médicos. As torcidas também, dizendo nomes feios em coro.

Se desejasse ser novamente a Ponte Preta, quando correndo à esquerda, roubava a bola de si próprio ou iniciava o segundo tempo. Marcava um gol. “Goooooooooooooooooool”, narrava, inflamando-se no prolongamento do “oooo”, fosse um gol campineiro. Quando de voz cansada, ele, o narrador da partida, passava a palavra aos comentaristas do jogo que, falando, davam descanso ao locutor. Sendo também o garoto os dois comentaristas do duelo, acabava por somente repousar as vozes dos outros, mas nunca verdadeiramente a sua, o que lhe rendia uma narração peculiar. Cortava palavras no meio, inventava expressões, onomatopéias e perdia o ar. Jogava então os braços e os pés de um mesmo lado do corpo para cima e caía no chão, como se seu gesto fizesse as vezes de sua voz, com emoção. Seu desempenho agradava a si próprio e ao público do estádio, incorporado em seu corpo franzino e suado. Feio somente era quando um chute, do adversário, é claro, ultrapassava os limites de seu estádio, levando a bola aos estádios vizinhos. “Havaianas, as legímias!”, dizia nesses momentos, tropeçando na pronúncia do merchandising.

Não lhe era penoso ter de ir buscar a bola nos vizinhos ou submeter seu pequenino corpo às peripécias de sua imaginação. Mas antes que pensem o contrário os velhos que se esquecem de suas infâncias, o garoto cansava-se em certo momento da partida. De repente, muito de repente, cansava-se. Sua energia restante permitia somente, ainda, que marcasse o derradeiro gol de desempate ponte-pretano e encerrasse a partida. Comemorando, gritava com alegria, socava o ar sendo provisoriamente o Pelé e pulava em cima de si próprio, formando a pilha de jogadores, no chão, a festejar.

Sua última tarefa do dia, a de comemorar a vitória da Ponte Preta, encerrava-se. Sentava no centro do gramado, então, e abraçava suas pernas, colocando o queixo sobre os joelhos, exausto. Finalmente, as equipes que haviam duelado despediam-se e o Milan clamava pela revanche. “Só se marcar para amanhã”, dizia então a Ponte. “Eu aceito”, respondia o Milan. O garoto, já solitário, com a estranha sensação de ser somente si próprio, olhava para o céu de seu estádio e pensava que jogaria bola no dia seguinte, novamente. Dormir seria o tempo exato para que o refletor do estádio Moisés Lucarelli voltasse a subir, até que ficasse a pino, iluminando o local para mais um espetáculo.

4 de fevereiro de 2009

O São Paulo perdeu

Assistindo a um telejornal, meu pai clamava por um copo d’água e atendê-lo ficava a cargo de mim ou de meu irmão. Como crianças, tínhamos a inabalável disposição em fazer favores aos nossos pais. Um, entretanto, por espontânea vontade, jamais buscaria o copo d’água sozinho, garantindo o ócio do outro e, por isso, por pura rivalidade, o caso resolvia-se através do par-ou-ímpar. Quem perdesse, buscaria o copo.

Nesses tempos idos, em disputas de par-ou-ímpar, assimilei a importância de se saber perder na vida. Apesar da indignação frente à derrota, encará-la com dignidade era primordial para a construção de meu caráter. Um fato ocorrido nesta semana me fez, entretanto, pensar em uma possibilidade quase inimaginável. Suponhamos que eu vencesse sucessivas disputas de par-ou-ímpar na minha infância, fosse frente ao meu irmão ou não. Suponhamos que por vinte e duas disputas consecutivas, em um período de cinco meses e dezesseis dias, eu não perdesse uma sequer. Suponhamos, enfim, que, após todo esse período, a derrota inesperadamente reaparecesse em minha vida, quebrando minha invencibilidade.  Como eu reagiria diante disso?

O fato que me inspirou a essa proposição é curioso. O São Paulo, meu time de futebol, após invencibilidade durante o longo período e número de partidas por mim referidos, perdeu, no último domingo, para o Santo André no Morumbi: 2 x 0. As reações à derrota me chamaram a atenção. Em casa, minha mãe, ao olhar a televisão e ver o São Paulo em desvantagem no placar, espantou-se e perguntou, incrédula: “O São Paulo?”. Sim, era o São Paulo que perdia.

Na imprensa, deram para investigar a preparação física dos jogadores do São Paulo e especular sobre a possibilidade do goleiro Rogério Ceni ter disputado a partida contundido. Algo de extraordinário haveria realmente de estar acontecendo. Resolveram, igualmente na imprensa, implicar com o habitual mau-humor de Muricy Ramalho, técnico da equipe, mesmo estando o seu comportamento rabugento presente também nas ocasiões de vitórias e empates. Jogadores, diretores e até mesmo o presidente do clube, foram obrigados a dar satisfações, na mídia, quanto ao tropeço da equipe. Instalou-se praticamente uma crise no clube.

Achei curiosas as reações à derrota pois, por mais que a imprensa insista em afirmar que a equipe do São Paulo não sabe perder, elas evidenciam um fato inusitado. Não é a equipe são-paulina que não sabe perder, acredito. São os espectadores da equipe são-paulina que desaprenderam a vê-la perder. Esses espectadores, entre eles a própria mídia, passam a buscar explicações para a derrota — nos raros casos em que ela acontece — em possíveis acontecimentos extraordinários, sendo que a derrota é, na verdade, algo natural para uma equipe de futebol.

Assim mesmo, não há como negar a iminente obrigatoriedade do São Paulo vencer a sua próxima partida. Caso contrário, os espectadores do espetáculo do futebol passarão a acreditar que as derrotas da equipe do Morumbi têm acontecido por decreto do presidente da república, corinthiano. Ou mesmo por uma medida-provisória.