6 de janeiro de 2009

A roupa velha do rei

Era dia 25 de dezembro à noite. Em meu estômago, preguiçosa como aquele momento, a ceia de Natal ainda era digerida. Meu corpo era invadido pelo tipo de sono que não nos faz dormir, apenas nos invade com sua preguiça e lentidão, sem conseguirmos, entretanto, combatê-las. Para completar a cena, tinha de arrumar malas: viajaria dia 26 pela manhã. Comecei a arrumação. Pra distrair, liguei a tevê. Guardava uma camiseta, olhava à tevê, guardava uma meia, olhava à tevê. E ela, que ligada estava para amenizar o meu tédio, acabou por, verdadeiramente, me acordar. Passava o show do Roberto Carlos. Aliás, o especial do Roberto Carlos. Realmente o que ele faz todo fim de ano na Globo não tem qualidade para ser chamado de show. De especial muito menos, diga-se de passagem.

A sensação que tenho é de que a mesma apresentação se repete todos os anos. A música inicial (“Quando eu estou aqui"...), o microfonezinho puxada à esquerda, os convidados. Os convidados sempre globais e os que estão “na crista da onda”, como os atores de A Favorita. As entrevistas que estes concedem, aliás, também são sempre iguais: “Ah, gente, o Rei é tudo-de-bom, né?”. Nada de populares, nada fora do controle global. E o Rei, chamemo-lo assim mesmo, faz o showzinho dele. Diz que são tantas emoções e que saberá melhor falar delas cantando. As falas parecem gravadas, as músicas parecem gravadas, tudo parece gravado desde muito tempo e repetido todos os anos. O Rei não é um Gilberto Gil, ralando em show de passagem de ano. O Rei não é um Caetano e nem um Chico que, mesmo recluso feito um monarca, não se entrega à badalação mercadológica de Globo e afins. O Rei é como um Erasmo Carlos, seu parceirinho aliás. Um aposentado em atividade. A diferença é que seu salário-aposentadoria é pago pela Globo, e o do Erasmo pela Tupi.

A indignação que tive dia 25 não vou conseguir expressar, agora, por aqui. Aquele dia, resumindo, achei que o Rei parecia de mentira. Mas o tempo passou. O tempo passou e eu mudei de ideia. O Rei não parece de mentira. O Rei é de mentira. E eu queria que todos o vissem nu, com ou sem meus olhos infantis.

3 comentários:

Eric Rocha disse...

Hahahahaha ri do final. Tá meio batido realmente esse especial... Mas ainda gosto das músicas dele, considero-o um excelente cantor, marcou época e por isso tem o meu respeito. Ele lançou, inclusive, um CD com Caetano só com músicas da bossa nova. Parece que foi bem elogiado. Enfim, acho que algumas tradições devem ser mantidas. Neste caso, não me interessa o fato dele ser mantido ou não pela Globa. E o Rei ja é tradição.

Daniel Serrano disse...

eu não queria ver nu; a perna deve ser assustadora.

katia disse...

Mas quem são os farsantes que vendem a roupa mágica?
=)