3 de janeiro de 2009

Fezinha

Rostos, pernas e braços impacientes; a fila enorme não dava trégua aos caixas da casa lotérica. Quanto mais estes se movimentavam, mais lenta ficava a fluidez dos homens e mulheres em direção aos bilhetes da sorte. O dia era de azar. Joaquim havia sonhado com um número e resolvera fazer a fezinha. Mas, ora, o que levava dezenas de pessoas a apostar na lotérica naquele dia? Sonharam com o mesmo número? Descobriram o número que ele havia sonhado, nessa cidade cheia de fofocas? Antes fosse isso. Dividiram todos o prêmio, que na casa dos milhões já incontáveis, seria infinito em todas suas parcelas. Mas não. Cada um havia sonhado com um número, cada um fazia a sua própria fezinha, e isso, aos olhos de Joaquim, evidenciava o óbvio: ele não ganharia nada, ninguém ali ganharia nada, além dos caixas da casa lotérica ou de algum empresário influente que, na maracutaia, levaria o prêmio.

Somente a companhia das pessoas colaborava para que permanecesse na fila: todos com cara de quem está em um cartório lotado. Joaquim não tinha obrigação de gastar alguns mangos em um bilhete e depois perder, mas a companhia das pessoas, a companhia íntima velada em rostos apáticos, fazia-o permanecer na fila. Contaminava-o do sentimento de obrigação coletiva, que fazia com que todos permanecessem em pé, esperando. Insistir na fé. A obrigação de se insistir na fé desgostosa que é a dos que tentam ter fé. Meia hora, uma hora, perdera a noção de há quanto tempo esperava para chegar ao caixa. Mas sua vez chegou. Retirou do bolso uma nota úmida e amassada de cinco reais. Antes de comprar, olhou para trás, para seus companheiros de fila: Maria de braços cruzados, Antoninho secando a fronte com seu lenço de pano, Arnaldo tossindo e denunciando seus problemas pulmonares. Uma penca de pessoas carregando nas costas o peso de acreditar, acreditar, acreditar. “Eu não vou ganhar nada, ninguém vai ganhar nada”, pensou enquanto levantava a cabeça para fazer o pedido à moça do caixa:

— Quero o que está neste papelzinho aqui — e mostrou os números rabiscados na tira de jornal — sonhei com ele, meu amor. Pode apostar que essa eu levo.

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