23 de janeiro de 2009

Calabar

"Quando formos todos culpados, será a democracia"
Albert Camus.

Iniciei hoje a leitura de Calabar - O Elogio da Traição, peça teatral de Chico Buarque e Ruy Guerra. O pouco que li, já gostei. Gostei também do prefácio, sob o título 'Uma reflexão sobre a traição', escrito por Fernandes Peixoto, o diretor da peça encenada no ano de 1980, já que fora censurada em 1973. Nele, Peixoto deixa claro que a peça tem o intuiuto, a partir da temática das invasões holandesas ao Brasil no século XVII, de provocar a reflexão quanto ao abstrato conceito da 'traição'. Acerca disso, diz que, no referido século, uma identidade genuinamente brasileira ainda não fora concretizada, impossibilitando a verdadeira libertação nacional. As lutas que existiam, então, opunham portugueses a holandeses e os interesses políticos e econômicos destes na colônia brasileira. Assim, logo de início, diz que a traição era uma atitude cotidiana à época: "defender Portugal ou defender a Holanda significava uma traição ao Brasil".

A peça conta com algumas das mais maravilhosas músicas de Chico Buarque, em parceria com Ruy Guerra, como Fado Tropical. Estão reunidas no álbum de 1973, com o título 'Chico Canta', já que a palavra 'Calabar', de 'Chico Canta Calabar', fora também censurada.

Mais dos que as belas canções, entretanto, o que me atrai nesse início de leitura (que deve amanhã se encerrar, a peça é curta) é o modo como o tema 'traição' é tratado. A traição de todos. Todos os personagens da trama carregam o peso de alguma traição, e o bode expiatório é Calabar. Esse tema me remete a outro livro, que li há poucos meses: A Queda, de Albert Camus. Nele, através do monólogo do personagem que se auto-defini "juiz-penitente", Camus mostra que a culpa é coletiva em uma sociedade. Todo homem carrega a sua e julga a de seus próximos, bem como tem, por eles, a sua julgada. "Uma vez que somos todos juízes, somos todos culpados uns perante os outros, todos cristos à nossa maneira vil, crucificados um por um, e sempre sem saber", diz.

"E sempre sem saber". Frasezinha pra ficar na cabeça. Pra nos atormentar em relação ao conceito tão estupidamente incompreensível que é o da culpa. Bem como é o da traição. Imagine, então, quando, a partir da "traição", alguém tem sua "culpa" escancarada para a história.

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