26 de janeiro de 2009

Em reforma

Certo. A palavra ideia perdeu o seu acento com a nova ortografia. Durante algum tempo, ao nos depararmos com ela escrita em um jornal ou revista,  vamos estranhá-la. Vamos achar graça em nos depararmos com essa mudança, em presenciarmos esse momento da história da lingua portuguesa. Vamos imaginar, sobretudo, sermos, aos nossos filhos, pessoas do tempo em que ideia tinha acento, equestre tinha trema e voo chapeuzinho no primeiro "o". 

Essa é a graça da reforma ortográfica. A sensação de uma mudança na história, nem que seja na dos jornais que serão arquivados para a posteriadade. O único problema é termos de escrever de acordo com as novas determinações. Um clichê, como ideia, qualquer mesa de bar brasileira assimila rapidamente. Mas e o resto? Dia desses, juntei duas palavras por mim já dominadas: ideia e estreia. Certo, pensei, há alguma relação entre as duas. Não parecem irmãs, afinal? Surgiu em minha cabeça, então, a indagação: se ideia e estreia perderam seus agudos, perderão também suas outras irmãs, como platéia e diarréia? Ao indagar sobre o assunto meu irmão mais velho, ouvi dele um pertinente comentário que, caso não tenha sido  levado em conta pela nova ortografia, deveria: diarréia perder o acento é algo grave. Ou agudo, acrescento eu. 

Acabei sanando minhas dúvidas através do bom "Guia Prático da Nova Ortografia", do Michaelis da UOL. De tudo sei agora, faltando decorar algumas regras do hífen. Uma delas, aliás, me obrigou a substituir, na última postagem deste blog, o mini-sorriso da Fátima Bernardes por um minissorriso que, escrito desta maneira, é bem verdade, vira quase um sorrisão. Ando me divertindo com esse assunto.


Ponho, por fim, foto que tirei, em viagem pelo litoral paulista, de um carro de golfe que servia de transporte para os moradores de um condomínio. Faço algumas observações: alerto que a crase, em "à todos", com a nova reforma, ou mesmo sem ela, deve deste papel imediatamente sumir, assim como somem os tremas aos olhos dos brasileiros doravante. O circunflexo em "pessôa" também cai, permanecendo a proibição de se fumar e levar cães ao veículo. 

Tenho uma dúvida, aliás. Haveria acento em pessoa, de acordo com a penúltima ortografia? Devo perguntar a alguém daquele tempo...

24 de janeiro de 2009

Há crise

Focalizaram bem o rosto da Fátima Bernardes, como agora por vezes fazem com os apresentadores do Jornal Nacional. Um semissorriso foi aberto para os telespectadores, acompanhado de uma feição feminina e carinhosa por parte da apresentadora. A notícia só poderia ser boa, pensei. Se não boa, branda. Algo como o nascimento de um urso-panda na China.

Meu engano percebi quando, sem perder a serenidade, Fátima introduziu o assunto da matéria que seguiria: ‘em tempos de crise, um assunto muito importante vem à tona: vale a pena, para os empregados, negociar direitos trabalhistas em troca de não serem demitidos?’.

Ora, não sou especialista em leis trabalhistas ou na relação trabalhador-empregado. Entretanto, no período de prosperidade que antecedeu a crise, quando a economia mundial estava em acelerado crescimento, não vi empresários propondo divisões de lucros, revisões de leis trabalhistas em benefício dos trabalhadores ou aumentos significativos de salários. Ao menos, nada foi veiculado no Jornal Nacional, se é que algum empresário agiu dessa maneira.

Como do assunto pouco entendo, não quero me alongar em críticas. Mas em minha mente leiga sinto martelar uma injustiça bastante evidente. Quando não há crise, os lucros, exorbitantes, aliás, têm destino definido – os bolsos dos patrões. Mas quando a crise existe... Parece-me inverossímil, sinceramente. Mas ao Jornal Nacional, pelo jeito, não. Desde o semissorriso da Fátima Bernardes até a exibição da matéria em si, passou-se a impressão, para quem estava em casa, de que a revisão das leis trabalhistas era algo natural, consequente do atual momento de crise. Como de praxe, a simples maneira como um assunto é introduzido no Jornal Nacional já é parcial. Já é manipuladora e tendenciosa, seja na feição simpática de Fátima para defender os empresários ou na entonação taciturna de Bonner para incriminar uma ocupação sem-terra. Invasão, aliás.

23 de janeiro de 2009

Calabar

"Quando formos todos culpados, será a democracia"
Albert Camus.

Iniciei hoje a leitura de Calabar - O Elogio da Traição, peça teatral de Chico Buarque e Ruy Guerra. O pouco que li, já gostei. Gostei também do prefácio, sob o título 'Uma reflexão sobre a traição', escrito por Fernandes Peixoto, o diretor da peça encenada no ano de 1980, já que fora censurada em 1973. Nele, Peixoto deixa claro que a peça tem o intuiuto, a partir da temática das invasões holandesas ao Brasil no século XVII, de provocar a reflexão quanto ao abstrato conceito da 'traição'. Acerca disso, diz que, no referido século, uma identidade genuinamente brasileira ainda não fora concretizada, impossibilitando a verdadeira libertação nacional. As lutas que existiam, então, opunham portugueses a holandeses e os interesses políticos e econômicos destes na colônia brasileira. Assim, logo de início, diz que a traição era uma atitude cotidiana à época: "defender Portugal ou defender a Holanda significava uma traição ao Brasil".

A peça conta com algumas das mais maravilhosas músicas de Chico Buarque, em parceria com Ruy Guerra, como Fado Tropical. Estão reunidas no álbum de 1973, com o título 'Chico Canta', já que a palavra 'Calabar', de 'Chico Canta Calabar', fora também censurada.

Mais dos que as belas canções, entretanto, o que me atrai nesse início de leitura (que deve amanhã se encerrar, a peça é curta) é o modo como o tema 'traição' é tratado. A traição de todos. Todos os personagens da trama carregam o peso de alguma traição, e o bode expiatório é Calabar. Esse tema me remete a outro livro, que li há poucos meses: A Queda, de Albert Camus. Nele, através do monólogo do personagem que se auto-defini "juiz-penitente", Camus mostra que a culpa é coletiva em uma sociedade. Todo homem carrega a sua e julga a de seus próximos, bem como tem, por eles, a sua julgada. "Uma vez que somos todos juízes, somos todos culpados uns perante os outros, todos cristos à nossa maneira vil, crucificados um por um, e sempre sem saber", diz.

"E sempre sem saber". Frasezinha pra ficar na cabeça. Pra nos atormentar em relação ao conceito tão estupidamente incompreensível que é o da culpa. Bem como é o da traição. Imagine, então, quando, a partir da "traição", alguém tem sua "culpa" escancarada para a história.

8 de janeiro de 2009

Táxi

Apesar da tensão a que somos submetidos no acompanhamento ocular do taxímetro, andar de táxi é sempre divertido. Se um ônibus tem lá seus momentos cômicos a nos oferecer, devido à diversidade de pessoas e conversas que nele encontramos, o táxi nos propicia uma relação mais íntima, embora forçada, e não por isso menos saborosa, com o motorista do automóvel. Certa vez, um motorista, feio que doía só de ver, contou-me com naturalidade acontecimentos de sua vida amorosa. E não eram simplesmente histórias de amor protagonizadas por ele. A totalidade delas, o que dava realce ao seu poder sedutor, passava-se em seu ambiente de trabalho, no táxi. Faz-se pertinente, aqui por mim, a citação de sua feiura pois, de acordo com suas próprias palavras, as mulheres que por sua vida passavam eram todas de suma beleza. Assim como o pescador pesca sempre os maiores peixes que existem, ele fazia as corridas com as mais deslumbrantes moças que existiam.

Tratou-se praticamente de um monólogo por parte do taxista, neste caso. Aliás, a maioria das vezes em que somos obrigados a andar de táxi, somos submetidos aos monólogos dos taxistas. É até mesmo constrangedor, diante de tanto ouvir, ter que elaborar alguns comentários para corresponder às expectativas dos narradores: "Nossa? Jura? Hum...". Por outro lado, é pertinente nos submetermos aos monólogos, entrecortados somente por nossos comentários poucossilábicos. Digo isso pois, da última vez em que me arrisquei a um diálogo, sendo este logo de início mal-sucedido, passei por uma situação ainda mais constrangedora do que o ouvir, ouvir, ouvir. Sucedeu que entrei no táxi e, mesmo percebendo o sotaque espanhol do motorista em questão, meti-me a iniciar uma conversa. Da maneira mais primitiva, fi-lo: "Como você chama?", perguntei. O taxista, em seu sotaque fortemente espanhol (era do Paraguai), disse-me: "José". Acontece que, por seu sotaque espanhol, sua pronuncia da palavra não foi exatamente igual à que faz, agora, meu leitor. Foi, imaginem o sotaque, algo próximo a isso: "Iosé". O "sé", aliás, não sei se devo escrever com o agudo ou com o circunflexo. No momento da corrida, entretanto, achando ser o circunflexo o mais apropriado, não sei por que cargas d'água senti ser interrogativa a sua afirmação. Ao seu "i o cê?", então, respondi: "O meu é Pedro. E o seu mesmo?".

6 de janeiro de 2009

A roupa velha do rei

Era dia 25 de dezembro à noite. Em meu estômago, preguiçosa como aquele momento, a ceia de Natal ainda era digerida. Meu corpo era invadido pelo tipo de sono que não nos faz dormir, apenas nos invade com sua preguiça e lentidão, sem conseguirmos, entretanto, combatê-las. Para completar a cena, tinha de arrumar malas: viajaria dia 26 pela manhã. Comecei a arrumação. Pra distrair, liguei a tevê. Guardava uma camiseta, olhava à tevê, guardava uma meia, olhava à tevê. E ela, que ligada estava para amenizar o meu tédio, acabou por, verdadeiramente, me acordar. Passava o show do Roberto Carlos. Aliás, o especial do Roberto Carlos. Realmente o que ele faz todo fim de ano na Globo não tem qualidade para ser chamado de show. De especial muito menos, diga-se de passagem.

A sensação que tenho é de que a mesma apresentação se repete todos os anos. A música inicial (“Quando eu estou aqui"...), o microfonezinho puxada à esquerda, os convidados. Os convidados sempre globais e os que estão “na crista da onda”, como os atores de A Favorita. As entrevistas que estes concedem, aliás, também são sempre iguais: “Ah, gente, o Rei é tudo-de-bom, né?”. Nada de populares, nada fora do controle global. E o Rei, chamemo-lo assim mesmo, faz o showzinho dele. Diz que são tantas emoções e que saberá melhor falar delas cantando. As falas parecem gravadas, as músicas parecem gravadas, tudo parece gravado desde muito tempo e repetido todos os anos. O Rei não é um Gilberto Gil, ralando em show de passagem de ano. O Rei não é um Caetano e nem um Chico que, mesmo recluso feito um monarca, não se entrega à badalação mercadológica de Globo e afins. O Rei é como um Erasmo Carlos, seu parceirinho aliás. Um aposentado em atividade. A diferença é que seu salário-aposentadoria é pago pela Globo, e o do Erasmo pela Tupi.

A indignação que tive dia 25 não vou conseguir expressar, agora, por aqui. Aquele dia, resumindo, achei que o Rei parecia de mentira. Mas o tempo passou. O tempo passou e eu mudei de ideia. O Rei não parece de mentira. O Rei é de mentira. E eu queria que todos o vissem nu, com ou sem meus olhos infantis.

3 de janeiro de 2009

Fezinha

Rostos, pernas e braços impacientes; a fila enorme não dava trégua aos caixas da casa lotérica. Quanto mais estes se movimentavam, mais lenta ficava a fluidez dos homens e mulheres em direção aos bilhetes da sorte. O dia era de azar. Joaquim havia sonhado com um número e resolvera fazer a fezinha. Mas, ora, o que levava dezenas de pessoas a apostar na lotérica naquele dia? Sonharam com o mesmo número? Descobriram o número que ele havia sonhado, nessa cidade cheia de fofocas? Antes fosse isso. Dividiram todos o prêmio, que na casa dos milhões já incontáveis, seria infinito em todas suas parcelas. Mas não. Cada um havia sonhado com um número, cada um fazia a sua própria fezinha, e isso, aos olhos de Joaquim, evidenciava o óbvio: ele não ganharia nada, ninguém ali ganharia nada, além dos caixas da casa lotérica ou de algum empresário influente que, na maracutaia, levaria o prêmio.

Somente a companhia das pessoas colaborava para que permanecesse na fila: todos com cara de quem está em um cartório lotado. Joaquim não tinha obrigação de gastar alguns mangos em um bilhete e depois perder, mas a companhia das pessoas, a companhia íntima velada em rostos apáticos, fazia-o permanecer na fila. Contaminava-o do sentimento de obrigação coletiva, que fazia com que todos permanecessem em pé, esperando. Insistir na fé. A obrigação de se insistir na fé desgostosa que é a dos que tentam ter fé. Meia hora, uma hora, perdera a noção de há quanto tempo esperava para chegar ao caixa. Mas sua vez chegou. Retirou do bolso uma nota úmida e amassada de cinco reais. Antes de comprar, olhou para trás, para seus companheiros de fila: Maria de braços cruzados, Antoninho secando a fronte com seu lenço de pano, Arnaldo tossindo e denunciando seus problemas pulmonares. Uma penca de pessoas carregando nas costas o peso de acreditar, acreditar, acreditar. “Eu não vou ganhar nada, ninguém vai ganhar nada”, pensou enquanto levantava a cabeça para fazer o pedido à moça do caixa:

— Quero o que está neste papelzinho aqui — e mostrou os números rabiscados na tira de jornal — sonhei com ele, meu amor. Pode apostar que essa eu levo.