23 de dezembro de 2008

Religião

Deu de cara com um homem, plantado em frente à casa. Interrompeu a varredura e com um levantar de sobrancelhas questionou o que desejava. "Boas festas", disse o sujeito inexpressivamente, como quem pergunta as horas. A senhora botou de lado a vassoura e, após pedir um instante de espera e ser mal compreendida pelo pedido, entrou na casa, à procura do marido: "Ô véio, tão pedindo boas festas". "Dê os meus sinceros votos", respondeu.

Assim era no período natalino. Pediam boas festas à senhora, que pedia ao velho que, por sua vez, dava as boas festas em cotas de ironia, nunca em dinheiro. A senhora sempre lamentava não dar sequer um trocadinho para os pobres coitados. Pensava, dominada pelo coração, que se vassoura tivesse lá seu preço compensador, cederia as suas aos pedintes. Talvez má idéia não fosse. No mês passado, as economias não deram para comprar uma vassoura nova, dissera-lhe o marido. Mas tinha vergonha de oferecer a vassoura e não o dinheiro, porque os que pedem boas festas querem dinheiro e não vassoura.

"Passa outro dia, tamos sem nada", disse ao trabalhador. Na hora de negar o dinheiro, sempre mandava voltar outro dia, mesmo que nesse outro não pudesse contribuir novamente. "Agora, passo só ano que vem", respondeu rispidamente o homem, como se fosse obrigação da senhora lhe ceder dinheiro, e foi embora. O marido, que espiava pela janela, disse: "Não deu os meus votos". "Você que não deu boas festas". "Dei sim". E a conversa acabou, porque a mulher voltou a varrer. Não iam se entender, não se entendiam há quarenta e três anos. Ademais, mesmo que se entendessem, não adiantaria. O trabalhador já havia ido embora, bravo, como quem pergunta as horas e perde o minuto.

Um comentário:

Marco Antônio de Araújo Bueno disse...

Pedro, gosto muito da fluêcia e da ausência de piguece nesse conto.
Abraço