12 de dezembro de 2008

Postado por Fernando Pessoa às 13:19

Muitos textos são alterados na internet. Alterados em seus conteúdos e nas autorias que lhe são atribuídas. Não sei ao certo porque alguns internautas o fazem, mas a lógica da manipulação é simples: se o texto for engraçado, atribui-se a ele a autoria de Luís Fernando Veríssimo. Se for polêmico, atribui-se a Arnaldo Jabor e se for profundo e subjetivo, sorteia-se a autoria entre Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa.

Quando o que é manipulado é o próprio conteúdo das obras, a manipulação, quase sempre, adiciona a elas recadinhos amorosos. Vejam o exemplo do poema Desencanto, de Manuel Bandeira. No original:

“Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

-- Eu faço versos como quem morre.”


... e na internet, manipulado:

“Eu faço versos como quem chora
De desalento , de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto

Meu verso é sangue , volúpia ardente
Tristeza esparsa , remorso vão
Dói-me nas veias amargo e quente
Cai gota à gota do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca

Eu faço versos como quem morre.
Qualquer forma de amor vale a pena!!
Qualquer forma de amor vale amar!”

2 comentários:

Marco Antônio de Araújo Bueno disse...

Pedro,
Muito feliz a síntese que fez do tripé do clichê literário na WEB:Veríssimo(leve), Jabor (médio-indignado, pra vender com Rita Lee) e Pessoa (o "eu" profundo, lá deles).Parece não haver espaço para o que é matizado. O que passaria como paródia vira plágio chinfrim. Mereceria um "ismo" ("liristerismo", p.ex.)se não julgá-lo sendo "a esmo". Ou apenas um... esgar. O esgar é o arremedo de um sorriso, diria F. Ficomeno numa de suas máximas em busca do mínimo.
Abraço

Daniel Serrano disse...

não se deram ao trabalho nem de manter a rima. haha. daí fica pior. há textos do veríssimo-falso, que, mesmo não sendo veríssimo, são engraçados. Vá lá...

Assino embaixo, Marco.