22 de dezembro de 2008

O hino

Cantar o Hino Nacional é sempre interessante. Principalmente quando o cantamos em grupo, em um grande evento. Com as mãos nos peitos ou em outra posição de respeito, iniciamos, entoando-o: "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas". E vamos adiante na letra de nosso hino que, devido a sua linguagem formal, nos é pouco familiar. Mesmo assim, orgulhosa, a voz do brasileiro vem em uma crescente e atinge o seu ápice no final da terceira estrofe: "Ó pátria amada/ Idolatrada/ Salve! Salve!". Eis que... Qual é o próximo verso do hino? Nesse momento, todos que, até então, cantavam em voz bastante alta, enrolam as próximas palavras, esquecidas, até que se engate novamente o canto. Dessa maneira, o "Brasil, um sonho intenso, um raio vívido" é cantarolado em um "na-na-na-na-na-na-na-na-na-naaaa" até engatarmos novamente no próximo verso. Afinal de contas, ninguém em nossa terra, do Oiapoque ao Chuí, jovem ou velho, sabe se, após o "Salve! Salve!", virá o "Brasil, um sonho intenso" ou o "Brasil, de amor eterno".

O que mais me irrita, entretanto, quando tenho de cantar o hino em grandes eventos, é o excesso de formalidade a que somos submetidos para cantá-lo. Até hoje, tenho receio de bater palmas após o seu término, devido a uma repreensão que recebi, em algum ano passado, por um professor que alegava a proibição de o fazer. Se a letra do nosso hino já é excessivamente formal para os padrões de linguagem que usamos no dia-a-dia, por que temos de nos submeter, ainda, a rituais cerimoniosos com o hino de nossa própria pátria? Deve-se cantá-lo parado, com as mãos posicionadas formalmente e, ainda por cima, não aplaudi-lo. O resultado disso tudo é óbvio: vê-se, em estádios de futebol, por exemplo, o povo brasileiro não cantando o hino de sua pátria, como sinal claro de que não se identifica nele. Ora, preferiria todos nós cantando o nosso hino à nossa própria maneira: podendo batucar, dançar, abraçar os amigos ao redor, bater muitas palmas e, é evidente, cantar a plenos pulmões. Seria original, bonito e demonstraria uma intimidade louvável entre o hino de um país e o seu povo.

2 comentários:

Imprensa Marrom e Cia disse...

Pedro, concordo com você em partes. O brasileiro é sim informal por natureza. Mas acredito que podemos criar uma identificação ainda maior com o nosso hino através de uma "formalidade informal". Explico a antítese: os mexicanos cantam com a mão em sentido horizontal ao peito não? Porque então, não podemos cantar com a mão no peito, no estilo jogador de futebol? É mais do que um símbolo futebolístico defasado, é um símbolo brasileiro. Ou então todos abraçados? Seria uma maneira de criarmos uma identificação legal sem perdemos uma formalidade necessária.

Um abraço! Parabéns pelo blog!

Eric

gustavo disse...

Lembra quando o professor Dr. Gabriel Cohn disse que nas ciências humanas muitas vezes nos aprofundamos, aprofundamos, aprofundamos infinitamente não sabendo em que ponto devemos parar? Experimentei isso na prática ao tentar comentar este texto. Escrevi, observei incoerências, reescrevi, as observei novamente, reescrevi mais uma vez, e por fim, não escrevi nada. Agora só me resta raiva deste comentário maldito que não consigo concluir! Mas de qualquer forma muito obrigado pela profunda reflexão que provocou em mim. E me desculpe por não saber dividi-la.