2 de dezembro de 2008

Mania de dicionário

Você que me lê, afaste-se dos dicionários de sua casa. Aqui, a linguagem utilizada será de fácil entendimento, mas, assim mesmo, a proximidade de um dicionário pode lhe ser inconveniente. O dicionário é um concorrente desleal.

Quando sento em minha cama para a leitura de um livro, esse deveria merecer-me toda a atenção do momento. Deveria, mas assim que sento para a sua leitura, ponho ao meu lado também um dicionário para que, aparecendo qualquer palavra por mim desconhecida, possa pesquisar o seu significado. É natural, aliás. Além de colaborar para a expansão de meu vocabulário, o dicionário permite o melhor entendimento da obra que está em minhas mãos. No caso de um poema, por exemplo, cada palavra é preciosa, indispensável e merece ser pesquisada a fundo. Devidamente pesquisada. Quando necessário. E é nesse ponto, a necessidade, que o dicionário imprime a sua concorrência desleal. Nos faz parecer necessária a pesquisa do que não é, de fato. Se estivesse, por exemplo, com um deles ao meu lado agora, fatalmente pesquisaria as diversas definições da palavra “fatal”. O dicionário cria em nós uma estranha insegurança. Achamos que não sabemos nenhuma palavra ou que, mesmo sabendo, não sabemos o suficiente. O livro, que está em minhas mãos, freqüentemente deita-se na cama e dá lugar ao dicionário. O dicionário deita diversos escritores e obras literárias consagradas. Ele causa-me dependência. Tem alguma fórmula que me faz, instantes depois de ler a definição de uma certa palavra desconhecida, esquecer sua definição. Quando me deparo novamente com a tal palavra, constato que voltei a desconhecê-la. Hoje mesmo, lendo poemas, procurei três vezes a definição de “ermo” e já esqueci sua definição. Amanhã, tenho certeza, algum poema me trará essa palavra novamente e, ao lê-la, interromperei minha leitura, quebrarei o desenvolvimento da poética e deitarei a obra literária na cama. Verei-me obrigado, enfim, a erguer o que de prontidão estará ao meu lado, uma pesada pilha de folhas, um dicionário, cumprindo um ritual que me proporciona, na mesma medida de minha indignação, um conforto genuíno. Eu amo um dicionário.

2 comentários:

Daniel Serrano disse...

você ama o MEU dicionário.

Paulão da Lanternagem disse...

É, mano, dicionário ao memo tempo que é mão na roda, é freio de mão puxado tombém porque, por exemplo, ele corta o fluxo verbal da mente, né?

Tou ligado na fita...

Por isso memo que eu quando leio e inscrevo eu nem passo perto do diconário, mano, na real memo!