24 de dezembro de 2008

Bom Natal a todos nós e que, em 2009, tenhamos um pouco da ironia de Carlos Drummond de Andrade.

O que fizeram do Natal

Natal.
O sino longe toca fino.
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas,
mas as filhas das beatas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.

23 de dezembro de 2008

Religião

Deu de cara com um homem, plantado em frente à casa. Interrompeu a varredura e com um levantar de sobrancelhas questionou o que desejava. "Boas festas", disse o sujeito inexpressivamente, como quem pergunta as horas. A senhora botou de lado a vassoura e, após pedir um instante de espera e ser mal compreendida pelo pedido, entrou na casa, à procura do marido: "Ô véio, tão pedindo boas festas". "Dê os meus sinceros votos", respondeu.

Assim era no período natalino. Pediam boas festas à senhora, que pedia ao velho que, por sua vez, dava as boas festas em cotas de ironia, nunca em dinheiro. A senhora sempre lamentava não dar sequer um trocadinho para os pobres coitados. Pensava, dominada pelo coração, que se vassoura tivesse lá seu preço compensador, cederia as suas aos pedintes. Talvez má idéia não fosse. No mês passado, as economias não deram para comprar uma vassoura nova, dissera-lhe o marido. Mas tinha vergonha de oferecer a vassoura e não o dinheiro, porque os que pedem boas festas querem dinheiro e não vassoura.

"Passa outro dia, tamos sem nada", disse ao trabalhador. Na hora de negar o dinheiro, sempre mandava voltar outro dia, mesmo que nesse outro não pudesse contribuir novamente. "Agora, passo só ano que vem", respondeu rispidamente o homem, como se fosse obrigação da senhora lhe ceder dinheiro, e foi embora. O marido, que espiava pela janela, disse: "Não deu os meus votos". "Você que não deu boas festas". "Dei sim". E a conversa acabou, porque a mulher voltou a varrer. Não iam se entender, não se entendiam há quarenta e três anos. Ademais, mesmo que se entendessem, não adiantaria. O trabalhador já havia ido embora, bravo, como quem pergunta as horas e perde o minuto.

22 de dezembro de 2008

O hino

Cantar o Hino Nacional é sempre interessante. Principalmente quando o cantamos em grupo, em um grande evento. Com as mãos nos peitos ou em outra posição de respeito, iniciamos, entoando-o: "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas". E vamos adiante na letra de nosso hino que, devido a sua linguagem formal, nos é pouco familiar. Mesmo assim, orgulhosa, a voz do brasileiro vem em uma crescente e atinge o seu ápice no final da terceira estrofe: "Ó pátria amada/ Idolatrada/ Salve! Salve!". Eis que... Qual é o próximo verso do hino? Nesse momento, todos que, até então, cantavam em voz bastante alta, enrolam as próximas palavras, esquecidas, até que se engate novamente o canto. Dessa maneira, o "Brasil, um sonho intenso, um raio vívido" é cantarolado em um "na-na-na-na-na-na-na-na-na-naaaa" até engatarmos novamente no próximo verso. Afinal de contas, ninguém em nossa terra, do Oiapoque ao Chuí, jovem ou velho, sabe se, após o "Salve! Salve!", virá o "Brasil, um sonho intenso" ou o "Brasil, de amor eterno".

O que mais me irrita, entretanto, quando tenho de cantar o hino em grandes eventos, é o excesso de formalidade a que somos submetidos para cantá-lo. Até hoje, tenho receio de bater palmas após o seu término, devido a uma repreensão que recebi, em algum ano passado, por um professor que alegava a proibição de o fazer. Se a letra do nosso hino já é excessivamente formal para os padrões de linguagem que usamos no dia-a-dia, por que temos de nos submeter, ainda, a rituais cerimoniosos com o hino de nossa própria pátria? Deve-se cantá-lo parado, com as mãos posicionadas formalmente e, ainda por cima, não aplaudi-lo. O resultado disso tudo é óbvio: vê-se, em estádios de futebol, por exemplo, o povo brasileiro não cantando o hino de sua pátria, como sinal claro de que não se identifica nele. Ora, preferiria todos nós cantando o nosso hino à nossa própria maneira: podendo batucar, dançar, abraçar os amigos ao redor, bater muitas palmas e, é evidente, cantar a plenos pulmões. Seria original, bonito e demonstraria uma intimidade louvável entre o hino de um país e o seu povo.

17 de dezembro de 2008

Sobe e desce

— Luís Otávio! Quanto tempo! Não parece nem que a gente...
— Pois é. É a correria, não...?
— Só aqui a gente esbarra de vez em quando...
— Nem me fale! Dezembrão...
— É a loucura que a gente conhece. E a família?
— Bem, graças a Deus. O difícil é reunir todo mundo no Natal. Filho estudando lá, irmão trabalhando acolá...
— Mas no fim dá tudo certo.
— É, Natal... Aliás, minha esposa gosta muito da sua, você sabe disso. Elas deviam se encontrar mais. Falo tanto pra Neire ir fazer uma visitinha à Dorinha...
— Verdade...
— Ela continua bordando?
— Sim, sim. Vai hoje mesmo mandar uma encomenda pro 215, pra dona Persiana. Dona Persiana que, aliás!
— O quê?
— Não tem observado o sobe-e-desce que ela está com molecada? Logo ela, hein! Onde pára o mundo?
— A dona Persiana?
— A própria.
— De sobe e desce com molecada? Molecada, molecada? A dona Persiana já tem lá seus quase sessenta anos...
— De puro fogo, meu caro! E eu que achava que persiana só se abria em dia de arco-íris...
— Como assim?
— Foi uma piada, ô Luizão! Persiana... cortina... Foi um trocadilhozinho... Não percebeu pelo tapinha que lhe dei nas costas?
— Você sempre me dá tapa nas costas, Gerson.
— Tem razão, mas a dona Persiana, não? De pensar que...
— Olha só! Vamos parar no segundo. Isso que dá ficar falando, falando, falando.
— Verdade, muda de assunto aí.
— O elevador vai abrir.
— Isso não é assunto, Luís, porra!
— Será que chove hoje?
— Se chover a persiana abre do mesmo jeito!
— A porta...
— Dona Persiana! Mas o Luís estava agora mesmo falando da senhora!
— Eu?!
— Você mesmo, Luisão. Falando daquele bolinho de fubá que a senhora fez pra nossa confraternização de Natal do ano passado... Teremos repeteco?
— Pois, então, meu filho. Não garanto nada, afinal...
— Afinal, está aquela correria, não é mesmo? Dezembrão... Natal... A Dorinha do Gerson leva o bolo dessa vez. Até breve.

15 de dezembro de 2008

A sapatada

Todos já estão sabendo do jornalista iraquiano que arremessou seus sapatos em direção ao presidente dos Estados Unidos, George Bush. Ponho aqui o vídeo da cena. Ponho por alguns motivos. Além de querer postar um vídeo pela primeira vez, vejo-me na obrigação de registrar esse momento único da história mundial, marcado pelo mais intenso "uhhh..." já ouvido na humanidade. Assim reagiram as pessoas que viram o sapato, por muito pouco, não atingir o presidente.

Quero, também, reconhecer a habilidade do presidente em fugir de sapatos. Que maravilha! Tenho que assumir: quão hábil é George W. Bush em matéria de desviar de sapatos! Ágil, porém sereno, conseguiu desviar dos dois arremessos, com um desempenho excepcional no primeiro deles. Imagino, ainda, suas palavras ao dono do sapato após seus magníficos desvios: "Hei, campeão, não foi dessa vez. Continue treinando: ainda defenderá a América em arremessos de sapatos" - em voz de filme dublado.

Ruas-mães

Andando depressa pelo Cambuí, tomei um susto. No momento em que tirava meus pés da calçada para colocá-los na rua que eu atravessaria, apareceu-me algo inesperado. Não era um carro. Era, na própria rua, um escrito em amarelo, próximo à calçada. Tratava-se de um aviso, provavelmente lá colocado pela prefeitura e, por isso, assustei-me quando o vi, pensando ser algo relativo à proibição de se pisar no local. Quando voltei os pés à calçada, finalmente juntei as letras amarelas: "OLHE -->".

Pelo bairro, reparei que outras ruas igualmente estavam com o aviso, indicando aos pedestres o lado da rua que deve ser olhado, por eles, no momento de suas travessias. O aviso, então, lá estava para evitar atropelamentos, induzindo os transeuntes a avaliarem o fluxo de carros da rua a ser atravessada. É positivo? Não. Ora, quem não teve mãe para avisar, incessantemente, ao longo da infância, que se deve olhar para os dois lados da rua antes de atravessá-la? Você que me lê pode pensar, então, no seguinte: o aviso ajudará às crianças, os pequenos seres ainda em fase de assimilação deste ensinamento materno elementar. Mas, ora, leitor, que mãe permitirá que seu filho, sem ter assimilado totalmente seu ensinamento, saia a andar sozinho pelas ruas? Aqueles que, por serem ainda muito novos, não têm o hábito de olhar aos dois lados da rua, caminham por elas de mãos dadas com suas mães ou pais. Conclui-se que o aviso é inútil e que tenta, ensinando o que é de responsabilidade das mães, inverter os valores da família brasileira. É a rua tentando virar mãe. É a mãe virando piche. Sou eu sendo irônico; os avisos são positivos, é evidente.

12 de dezembro de 2008

Postado por Fernando Pessoa às 13:19

Muitos textos são alterados na internet. Alterados em seus conteúdos e nas autorias que lhe são atribuídas. Não sei ao certo porque alguns internautas o fazem, mas a lógica da manipulação é simples: se o texto for engraçado, atribui-se a ele a autoria de Luís Fernando Veríssimo. Se for polêmico, atribui-se a Arnaldo Jabor e se for profundo e subjetivo, sorteia-se a autoria entre Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa.

Quando o que é manipulado é o próprio conteúdo das obras, a manipulação, quase sempre, adiciona a elas recadinhos amorosos. Vejam o exemplo do poema Desencanto, de Manuel Bandeira. No original:

“Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

-- Eu faço versos como quem morre.”


... e na internet, manipulado:

“Eu faço versos como quem chora
De desalento , de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto

Meu verso é sangue , volúpia ardente
Tristeza esparsa , remorso vão
Dói-me nas veias amargo e quente
Cai gota à gota do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca

Eu faço versos como quem morre.
Qualquer forma de amor vale a pena!!
Qualquer forma de amor vale amar!”

9 de dezembro de 2008

Formatura

Meio chata, a professora de meu irmão disse a sua sala de aula: “Não se animem muito. Não é uma formatura. É apenas uma transição”. Não concordo com o comentário, acho-o inconveniente e, por isso, teimo: o evento em que estive presente na última quinta-feira chama-se formatura. Formatura de quarta série.

Como as formaturas são tradicionais! Todas têm mães chorando, mães falando alto, mães, com orgulho dos filhos, beijando seus maridos emocionadas. Toda formatura tem muita mãe. Tem a mãe de primeira viagem, aquela que é uma tiete no evento. Tem a mãe experiente no assunto, que está na formatura do caçula de seus cinco filhos, aquela mãe com cara de avó. Toda formatura tem mãe tirando foto. Mãe tirando muita foto: do formando, dos irmãos com o formando, do pai com o formando, da avó com o formando. Toda formatura tem a cena cômica que são os acenos dos pais, na platéia, para seus filhos, no palco. Em nenhuma formatura os filhos vêem os acenos.

Toda formatura tem repertório musical previsivelmente emocionante. Tem Roberto Carlos em “É preciso saber viver”, Elis Regina em “Como os nossos pais” e Renato Russo em “Pais e filhos”. Toda formatura tem, obrigatoriamente, Toquinho em seu repertório musical, tem “Aquarela” entoada pelos presentes e toda formatura acaba por, no inusitado de sua previsibilidade, emocionar os seus personagens: pais, mães, avós, irmãos, amigos. Toda formatura tem formandos.

4 de dezembro de 2008

Lendo

O tempo de leitura que dedicamos a um poema é um insulto a ele e ao seu autor. A leitura, ou melhor, o estudo de um poema, merece o tempo de toda uma vida. Tempo que, mesmo assim, talvez não seja suficiente para nos inserirmos em seu universo, composto por cada uma de suas idéias, de seus versos e estrofes. Cada uma de suas letras, vogais e consoantes, sons e palavras. Com a leitura rápida que fazemos dos livros, jamais perceberemos tudo o que um poeta escreve.

O mesmo vale no caso de romances. Há um mês, assisti a um seminário de estudantes do sétimo ano do Ensino Fundamental II da minha escola. Cada grupo de alunos devia escolher um clássico da literatura e dele fazer uma análise. Convidado a assistir à apresentação sobre A Roupa Nova do Rei, aprendi bastante com as crianças. No processo de leitura do livro, não leram somente as suas páginas. Fizeram minuciosa pesquisa da biografia do seu autor, Hans Christian Andersen, do contexto histórico em que a obra fora escrita e das divergências entre as traduções do livro para a língua portuguesa. Com as ferramentas para uma boa análise em mãos, fizeram-na. Interpretaram coerentemente o romance, de maneira “sustentada no texto”, como dizia sua professora, e apresentaram uma espetacular leitura das metáforas utilizadas nesse.

Fui embora da escola feliz por ter visto a análise da criançada, feita com inteligência e crítica. Feliz em notar como perceberam que, munidos de conhecimento histórico e biográfico, podem analisar coerentemente as metáforas existentes nos livros que lêem e como essa análise é prazerosa para eles próprios, leitores. É verdade que, como bem disse a professora, com 12, 13 anos, as crianças têm todo o tempo de mundo para pesquisarem o que quiserem sobre qualquer livro. Não é por isso que a apresentação a que assisti deixou de ser um ensinamento para mim. Saio sempre de um livro com a sensação de que deveria ter lido-o melhor, assim como fizeram as crianças.

A tempo, aliás: belíssimo trabalho realizado pela professora dos garotos e garotas.

2 de dezembro de 2008

Mania de dicionário

Você que me lê, afaste-se dos dicionários de sua casa. Aqui, a linguagem utilizada será de fácil entendimento, mas, assim mesmo, a proximidade de um dicionário pode lhe ser inconveniente. O dicionário é um concorrente desleal.

Quando sento em minha cama para a leitura de um livro, esse deveria merecer-me toda a atenção do momento. Deveria, mas assim que sento para a sua leitura, ponho ao meu lado também um dicionário para que, aparecendo qualquer palavra por mim desconhecida, possa pesquisar o seu significado. É natural, aliás. Além de colaborar para a expansão de meu vocabulário, o dicionário permite o melhor entendimento da obra que está em minhas mãos. No caso de um poema, por exemplo, cada palavra é preciosa, indispensável e merece ser pesquisada a fundo. Devidamente pesquisada. Quando necessário. E é nesse ponto, a necessidade, que o dicionário imprime a sua concorrência desleal. Nos faz parecer necessária a pesquisa do que não é, de fato. Se estivesse, por exemplo, com um deles ao meu lado agora, fatalmente pesquisaria as diversas definições da palavra “fatal”. O dicionário cria em nós uma estranha insegurança. Achamos que não sabemos nenhuma palavra ou que, mesmo sabendo, não sabemos o suficiente. O livro, que está em minhas mãos, freqüentemente deita-se na cama e dá lugar ao dicionário. O dicionário deita diversos escritores e obras literárias consagradas. Ele causa-me dependência. Tem alguma fórmula que me faz, instantes depois de ler a definição de uma certa palavra desconhecida, esquecer sua definição. Quando me deparo novamente com a tal palavra, constato que voltei a desconhecê-la. Hoje mesmo, lendo poemas, procurei três vezes a definição de “ermo” e já esqueci sua definição. Amanhã, tenho certeza, algum poema me trará essa palavra novamente e, ao lê-la, interromperei minha leitura, quebrarei o desenvolvimento da poética e deitarei a obra literária na cama. Verei-me obrigado, enfim, a erguer o que de prontidão estará ao meu lado, uma pesada pilha de folhas, um dicionário, cumprindo um ritual que me proporciona, na mesma medida de minha indignação, um conforto genuíno. Eu amo um dicionário.