6 de novembro de 2008

O sonho

Veio-me por sonho a (quase) exata cena que descrevi no conto recentemente postado: O estandarte do sanatório. Foi bom, gostei do que sonhei e também do que escrevi.

Mas acontece que o sonho é uma faca e, dias desses, sonhei de novo. Algo que, diferentemente da cena que me viera da última vez, se baseava em fatos reais. No plano real, crianças estavam vendendo bilhetes de rifa em minha escola. Rifava-se um notebook. O objetivo era arrecadar dinheiro para uma instituição de caridade e muitos alunos vendiam os papeizinhos da sorte. Como, dois meses antes, havia ganho, em uma outra rifa, também em minha escola, uma câmera fotográfica, acredito que o meu onirismo, a esmo, quis repetir o feito. E assim, no plano onírico, estive em um ônibus e, de repente, nele entrou um adulto, o sorteador, dizendo que eu havia ganho o notebook.

Acordei e constatei o óbvio: aquele sonho era um sinal.

No dia seguinte, não foi difícil achar crianças a querer me vender papéis de rifa. Mas superstição é superstição. Se havia sonhado e o sonho, comprovadamente, era um sinal, deveria seguir o sonho à risca. Como havia sonhado em um ônibus, não compraria o meu papel de qualquer criança em qualquer lugar. Comprei a rifa, então, em uma van, o que não era exatamente um ônibus, mas era semelhante. Como quem me vendera a rifa no tal sonho fora uma menina, de uma menina comprei, de fato, a rifa. Aliás, comprei dois papéis, totalizando um gasto de quatro reais. Tinha certeza de que eu venceria.

Hoje foi o sorteio e eu perdi. Aliás, acho que não se perde uma rifa, deixa-se de ganhar. E perde-se um pouco da magia de um sonho. É a faca de dois gumes. Se é baseado na irrealidade, é bom: transforme em algo existente, como fiz no conto. Mas se é baseado na realidade, não tem jeito: vira, rapidinho, uma irrealidade constrangedora. Ainda bem que ninguém sabe o que a gente anda sonhando.

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