25 de novembro de 2008

Jogo de memória

O telefone tocou e meu irmão atendeu. Era a minha mãe querendo falar comigo e, com a oportunidade, pensei em algumas coisas que queria eu dizer a ela. Primeiramente, de supetão, que fizera um café terrivelmente fraco pela manhã e, mais adiante na conversa, que precisava marcar um retorno ao dentista e um horário qualquer para a tosa da minha cabeleira. "Oi, mãe... Esqueci de alguma coisa que queria te falar...". Tentando ajudar, sugeriu um assunto qualquer, que nada tinha de semelhante com o que fugia de minha mente, o café fraco. "Não, mãe. Era algo, assim, bem de comecinho que eu ia falar... Deixa pra lá!". O café ficou para lá e, conversa vai, conversa vem, nada também de falar de dentista ou cabeleireiro. Havia esquecido novamente. De repente, lembrei. Lembrei não do que deveria falar, mais sim de que deveria falar de algo e esse algo me fugia terrivelmente da cabeça. "Mãe, tinha outra coisa... E não vou conseguir lembrar de novo". Desliguei o telefone. Liguei o telefone, havia lembrado! "Mãe, sou eu de novo. Marca para eu cortar o cabelo, é isso!". Excelente. Cabelo lembrado e marcado, mas o dentista, é claro, insistiu em escorregar pela minha memória, como uma babinha pela gengiva, e fui lembrar dele só horas depois.

Rotina intensa, pensei. A cabeça muito ocupada falha às vezes. Ademais, falhar com a mãe, sem problemas. Mãe nos compreende. Foi ela quem me deixou no dentista hoje. Após esse compromisso, marcara também meu corte de cabelo, em salão ao qual eu iria a pé, em endereço, até então, desconhecido por mim. Ciente do estado de minha memória, explicou minuciosamente o caminho que eu deveria tomar, o nome do salão e, após ponderar que, ao menos isso, eu não esquecesse, avisou: "O corte é com a Salomé. Cabeleireira Salomé."

Com os dentes tratados, entrei no salão. À esquerda da recepcionista, que me disse bom dia, estava um negro, cabeleireiro do local e que logo deduzi ser o sujeito que cortaria meu cabelo. Mas a dedução que não é feita com o uso da boa memória é traiçoeira e, sem me dar conta desse empecilho, disse, confiante, à recepcionista: "Vim cortar com o Salomão". O negro não se moveu. Atrás de mim, sentada em um sofá, me dei conta de uma senhora, até então, pouco notada por mim. Para lá de seus setenta anos de idade, com um metro e cinqüenta de altura e a ler uma revista qualquer, havia eu pensado ser uma cliente, das mais tradicionais, do tal salão de beleza. Voltei os olhos à recepcionista e, sem que se assumisse qualquer Salamão no recinto, temi a gafe confirmada por suas palavras à senhorinha: "Vamos lá, Dona Salomé?"

3 comentários:

O Bororó disse...

Se eu precisar de um cronista já sei bem onde buscar. Vou contar com você, pois vc é bom nisso, rapaz!

Abração, Leandro.

Lívia disse...

hahaha! salomão.

Imprensa Marrom e Cia disse...

Ahuaahuhua muito bom! Me identifiquei. Essa questão de esquecer é típico de quem tem um monte de coisa na cabeça. Imagine então pessoas que estudam Jornalismo e não podem esquecer coisas básicas com o sobrenome de uma pessoa? Enfim, é por isso eu adoro um papel e uma caneta.

Eric Rocha