30 de novembro de 2008


No dia 5 de dezembro, estarei presente nesse evento.

Irei a São Paulo motivado pela vontade de conhecer a literatura que publicará a revista Neuromancer, no campo da ficção científica. Um dos autores que nela publicará contos é Marco Antônio de Araujo Bueno, psicanalista e escritor, meu tio e de quem tenho imenso orgulho de ser, há quase dez anos, o leitor número zero. A revista nos convida a experimentações literárias. Marco, rompendo, em seus contos, com marcas temporais e espaciais fixas, leva o leitor a um conteúdo inovador e que destoa, para o bem dos novos tempos, da literatura monótona, que muito observamos atualmente.

Se clicarem no convite que aqui publico, ele aumentará de tamanho, o que facilita sua leitura.

25 de novembro de 2008

Jogo de memória

O telefone tocou e meu irmão atendeu. Era a minha mãe querendo falar comigo e, com a oportunidade, pensei em algumas coisas que queria eu dizer a ela. Primeiramente, de supetão, que fizera um café terrivelmente fraco pela manhã e, mais adiante na conversa, que precisava marcar um retorno ao dentista e um horário qualquer para a tosa da minha cabeleira. "Oi, mãe... Esqueci de alguma coisa que queria te falar...". Tentando ajudar, sugeriu um assunto qualquer, que nada tinha de semelhante com o que fugia de minha mente, o café fraco. "Não, mãe. Era algo, assim, bem de comecinho que eu ia falar... Deixa pra lá!". O café ficou para lá e, conversa vai, conversa vem, nada também de falar de dentista ou cabeleireiro. Havia esquecido novamente. De repente, lembrei. Lembrei não do que deveria falar, mais sim de que deveria falar de algo e esse algo me fugia terrivelmente da cabeça. "Mãe, tinha outra coisa... E não vou conseguir lembrar de novo". Desliguei o telefone. Liguei o telefone, havia lembrado! "Mãe, sou eu de novo. Marca para eu cortar o cabelo, é isso!". Excelente. Cabelo lembrado e marcado, mas o dentista, é claro, insistiu em escorregar pela minha memória, como uma babinha pela gengiva, e fui lembrar dele só horas depois.

Rotina intensa, pensei. A cabeça muito ocupada falha às vezes. Ademais, falhar com a mãe, sem problemas. Mãe nos compreende. Foi ela quem me deixou no dentista hoje. Após esse compromisso, marcara também meu corte de cabelo, em salão ao qual eu iria a pé, em endereço, até então, desconhecido por mim. Ciente do estado de minha memória, explicou minuciosamente o caminho que eu deveria tomar, o nome do salão e, após ponderar que, ao menos isso, eu não esquecesse, avisou: "O corte é com a Salomé. Cabeleireira Salomé."

Com os dentes tratados, entrei no salão. À esquerda da recepcionista, que me disse bom dia, estava um negro, cabeleireiro do local e que logo deduzi ser o sujeito que cortaria meu cabelo. Mas a dedução que não é feita com o uso da boa memória é traiçoeira e, sem me dar conta desse empecilho, disse, confiante, à recepcionista: "Vim cortar com o Salomão". O negro não se moveu. Atrás de mim, sentada em um sofá, me dei conta de uma senhora, até então, pouco notada por mim. Para lá de seus setenta anos de idade, com um metro e cinqüenta de altura e a ler uma revista qualquer, havia eu pensado ser uma cliente, das mais tradicionais, do tal salão de beleza. Voltei os olhos à recepcionista e, sem que se assumisse qualquer Salamão no recinto, temi a gafe confirmada por suas palavras à senhorinha: "Vamos lá, Dona Salomé?"

22 de novembro de 2008

Ainda

Ainda sobre empreendedorismo. Ontem, logo após escrever aqui a minha postagem, fui almoçar, assistindo à tevevisão, no canal Sportv. Pois lá, coincidentemente, falava-se de empreendedorismo. O convidado especial do programa era o dono de uma rede de contatos entre empreendedores. E o papo da mesa intelectualizou-se. O apresentador resolveu falar sobre a revolução industrial, perguntando se, com ela, havia sido alterado o espírito empreendedor nas pessoas, para melhor ou pior.

Vestindo uma camiseta em que estava escrito "Faça e aconteça", o convidado especial do progama começou sua resposta: para ele, essa história de que o advento das máquinas, na revolução, gerou desemprego era balela. Na verdade, dizia, as máquinas obrigaram as pessoas a deixar de realizar o trabalho que faziam, "trabalho pesado", que não exigia delas inteligência, para realizar trabalhos mais apurados, que exigiam o intelecto. Resumindo a resposta, disse que a revolução industrial não gerou desemprego, mas qualificou a mão-de-obra.

Quem quiser, seja adepto ao empreendedorismo da moda. Mas, por favor, adepto ao igrorantismo não.

21 de novembro de 2008

Empreendedorismo

Empreendedor, segundo o dicionário Michaelis da uol: "Que, ou o que empreende. 2. Ativo, arrojado". Empreender: "Tentar realizar algo difícil. 2. Pôr em execução. 3. Fazer."

Se empreender designa "tentar realizar algo difícil", muitas pessoas são empreendedoras no Brasil. Qualquer integrante do Movimento Sem Terra, por exemplo, é um empreendedor de primeiríssima. Afinal, existirá algo mais difícil do que realizar a reforma agrária no nosso país? Outro expoente do empreendedorismo no nosso país talvez seja o Protógenes Queiroz, delegado. Depois da reforma agrária, convenhamos, não há fato mais difícil, nessa nossa terra, do que levar um banqueiro, em especial Daniel Dantas, em cana.


Empreendedor, segundo o Jornal Nacional, incessantemente, na semana do empreendedorismo: Aquele que abre seu próprio negócio.

Para a mídia, a maior qualidade que uma pessoa pode ter atualmente é ser empreendedora. Empreendedora no sentido de ser empresária. Ser a pessoa que pensa em abrir o seu próprio negócio e encher seu bolso de dinheiro. Não há nada de criminoso ou desonesto nisso. Mas a mídia vende a idéia de que, sendo a maior qualidade que uma pessoa pode ter, o fato de ser um empreendedor/empresário é, por si só, a maior contribuição que esta pessoa pode dar a sua sociedade. Ou seja, cuidar somente de sua própria vida e de seus negócios. Diz-se deste empreendedor uma pessoa corajosa, arrojada, inovadora. Molda-se esta imagem de perspicácia para, na verdade, estimular nos cidadãos o mais absoluto individualismo. Deve-se ser um pessoa arrojada, sim, mas na aplicação de seu dinheiro. Deve-se ser uma pessoa corajosa e inovadora, sim, mas na abertura de seu próprio negócio. Deve-se ser uma pessoa inteligente, sim, mas para saber manter a estrutura social e econômica vigentes, a economia estável para seus bolsos, o mundo vitorioso pós-Guerra Fria.

Pior é quando se diz da importância da juventude ser, desde já, estimulada ao espírito empreendedor. Adolescentes preocupados em traçar, como metas de suas vidas, a abertura de uma empresa, de um negócio próprio. Um futuro empresário, para movimentar seus bolsos e a economia do país. Tenho eu algo de errado ou realmente não é algo natural adolescentes terem como objetivo de vida serem empresários? Não deve ser essa a fase da vida em que as pessoas querem, sim, ser empreendedoras, mas no sentido real da palavra, aquele que mostrei pelo dicionário?

A divulgação, pela mídia, dessa palavrinha - empreendedorismo - que não mais suporto escutar, traça um futuro individualista, conformista e conservador à sociedade e à juventude. Nesse sentido, não quero ser empreendedor.

17 de novembro de 2008

Veja mal

Aqui em casa, paramos de assinar a revista Veja há quase um ano. Desde então, como podem observar nos sites que recomendo aqui em meu blog, assinamos a Carta Capital e a Caros Amigos, respectivamente, na minha opinião, a melhor semanal e a melhor mensal do Brasil. Antes de ontem, à tarde, tive uma surpresa. Recebemos, em minha casa, seis exemplares da revista Veja. Grátis. Mas acredito que, para que a revista Veja seja realmente gratuita, não basta não pagarmos por seu recebimento. Deveríamos, também, receber dinheiro dos editores da revista. Eu explico.

Veja é uma revista que mente e manipula informações em suas matérias. É uma revista que, claramente não o sendo, insiste estupidamente em se auto-afirmar imparcial e, através dessa falsa imagem passada ao leitor, manipula e aliena este. É uma revista que, invariavelmente, posiciona-se contra os movimentos sociais em nosso país e que sustenta, em suas matérias, visões preconceituosas contra pobres, indígenas e outros grupos oprimidos em nossa sociedade. Uma revista como essa traz prejuízo ao leitor. Prejuízo. Então, para que se leia Veja de graça, repito, só recebendo dinheiro para compensar o prejuízo que temos ao lê-la. Veja é uma revista que crê que Evo Morales é um ditador sanguinário, Lula é um comunista que planeja um golpe de Estado e Fidel Castro um psicopata que come criancinhas. Veja é tão estúpida que deixa de criticar pontos, de fato, criticáveis em muitas pessoas ou situações. Poderíamos listar, infinitamente, aspectos a serem coerentemente contestados em Lula ou Fidel. Mas Veja joga baixo, opta pela fofoca, pelos dossiês forjados e por um tipo de crítica e oposição política que, para além de desleais e anti-éticas, me parecem retrógradas. Comportam-se como um grupo reacionário na época da ditadura militar, alertando o "perigo comunista", ou mesmo como antigos veículos de comunicação em anos idos de república, como no Café-com-leite, onde, de maneira falaciosa, defendiam-se ou criticavam-se pessoas por simples conveniências comerciais ou por conchavos políticos. Esquecem-se da ética.

Das quatro principais revistas semanais brasileiras, só Carta Capital teve aumento no número de assinaturas em 2007, enquanto o número da Veja caiu significativamente. Portanto, não me estressarei mais com esta revista. Esses seis exemplares, que chegaram em minha casa, escancaram aos meus olhos o óbvio: uma estratégia, desesperada, de recuperação de vendas por uma empresa que, diante de sua própria falta de honestidade e respeito com o consumidor, prevê seu futuro lógico: a falência. Como diria Kajuru, eu não leio Veja porque "não sou masoquista". E basta.

14 de novembro de 2008

Quem fez mais pum?

O Obama tem uma baita sorte de ter, como seu antecessor, o Bush. Isso facilita a vitória de qualquer opositor. Mas não vou, por aqui, discutir as eleições estadunidenses. Venho a esta postagem, que é medíocre, porque não resisti. Não resisti a escrever, por aqui, uma informação que li na Folha de ontem. Por isso minha postagem é medíocre: se fosse para transcrever a Folha de São Paulo, o meu blog não deveria nem existir.

Pois bem. Deparei-me com a notícia: em San Francisco, 12 mil estadunidenses assinaram uma petição para que o esgoto de sua cidade fosse rebatizado de "George W. Bush".

Que formidável, não é mesmo? Transfiramos essa realidade para o Brasil. Imagina você lá no seu banheiro, fazendo as suas necessidades. Ao término destas, digamos, já materializadas, em contato com a água, você pode dar um tchauzinho a elas e desejar uma boa viagem até o "Gilmar Mendes". Ou, ainda, recitar o célebre poema: “Quando eu defeco/eu sinto uma emoção profunda/as fezes batem na água/e o Gilmar Mendes toma no judiciário.”

Que postagem mais nojenta!

11 de novembro de 2008

É bem melhor!


Li uma pequena biografia sobre Chico Buarque. Chama-se Tantas Palavras e é de Humberto Werneck.

Em certo momento do livro, o autor nos conta que, com o surgimento do movimento Tropicalista, nos anos 60, a relação entre o então jovem cantor Chico Buarque e seus amigos que passaram a fazer parte do movimento foi estremecida. Os tropicalistas diziam que Chico era conservador, passadista. Em certo momento, seguindo a tendência de críticas, Tom Zé, um dos grandes nomes do tropicalismo, declarou que respeitava Chico, "afinal, ele é nosso avô." Acontece que, tempos depois, Chico, em um artigo seu, respondeu que "nem toda loucura é genial, como nem toda lucidez é velha". Afirmação que, diga-se de passagem, é muitíssimo verdadeira. Acredito que, depois dessa afirmação, Tom Zé deve ter reagido somente coçando os cabelos e pensando: "Féla-da-puta!"

A verdade é que eu conheço pouco da produção do Tom Zé, assim como a de todos os tropicalistas. O Chico, venho conhecendo melhor desde que li sua biografia. Mas travo, aqui em casa, uma briga interna, uma rivalidadezinha boba, com o meu irmão. Para mim, Chico é disparadamente melhor do que o Tom Zé. Para ele, o contrário. E toda vez que eu conto a história dessa "troca de farpas" entre os dois, ele fica louco da vida, não querendo reconhecer o óbvio: Chico é bem melhor.

6 de novembro de 2008

O sonho

Veio-me por sonho a (quase) exata cena que descrevi no conto recentemente postado: O estandarte do sanatório. Foi bom, gostei do que sonhei e também do que escrevi.

Mas acontece que o sonho é uma faca e, dias desses, sonhei de novo. Algo que, diferentemente da cena que me viera da última vez, se baseava em fatos reais. No plano real, crianças estavam vendendo bilhetes de rifa em minha escola. Rifava-se um notebook. O objetivo era arrecadar dinheiro para uma instituição de caridade e muitos alunos vendiam os papeizinhos da sorte. Como, dois meses antes, havia ganho, em uma outra rifa, também em minha escola, uma câmera fotográfica, acredito que o meu onirismo, a esmo, quis repetir o feito. E assim, no plano onírico, estive em um ônibus e, de repente, nele entrou um adulto, o sorteador, dizendo que eu havia ganho o notebook.

Acordei e constatei o óbvio: aquele sonho era um sinal.

No dia seguinte, não foi difícil achar crianças a querer me vender papéis de rifa. Mas superstição é superstição. Se havia sonhado e o sonho, comprovadamente, era um sinal, deveria seguir o sonho à risca. Como havia sonhado em um ônibus, não compraria o meu papel de qualquer criança em qualquer lugar. Comprei a rifa, então, em uma van, o que não era exatamente um ônibus, mas era semelhante. Como quem me vendera a rifa no tal sonho fora uma menina, de uma menina comprei, de fato, a rifa. Aliás, comprei dois papéis, totalizando um gasto de quatro reais. Tinha certeza de que eu venceria.

Hoje foi o sorteio e eu perdi. Aliás, acho que não se perde uma rifa, deixa-se de ganhar. E perde-se um pouco da magia de um sonho. É a faca de dois gumes. Se é baseado na irrealidade, é bom: transforme em algo existente, como fiz no conto. Mas se é baseado na realidade, não tem jeito: vira, rapidinho, uma irrealidade constrangedora. Ainda bem que ninguém sabe o que a gente anda sonhando.

3 de novembro de 2008

Entalado na garganta

"Pedro, desce! Pedro, desce!", gritou meu pai. Eu estava no banheiro, lavando o rosto e sabendo que, apesar da vitória no GP, Felipe Massa ficaria somente com o vice campeonato. A televisão do meu quarto estava ligada e, junto com a voz do meu pai, ouvi a euforia do Galvão Bueno quando o piloto (de que não lembro o nome) colocou Hamilton na sexta colocação. A partir de então, loucura total.

Desci correndo a escada e fui para perto de minha família, na sala. 2 voltas restavam. Minha mãe acordou (dormira toda a outra parte da corrida). Eu, meu pai e meu irmão ficamos andando em volta da televisão, em um nervosismo descomunal. Uma volta. Bateu a sensação que ia dar mesmo o que queríamos. "Pai, vai dar Massa!", disse, não acreditando no que eu mesmo dizia. Voltei meu corpo todo em direção à tevê. Meu pai também. Era a posição de quem esperava alguns segundos para comemorar. Meu irmão abriu o celular e começou a redigir uma mensagem, avisando de nossa vitória, ao meu outro irmão que, coitado, estava em um ônibus, em viagem: "Hamilton em 6º, Massa 1º. Assim, campeão".

Meu estado estático, além de observar atentamente a televisão, fez ser preparado em mim um choro de intensa emoção, que viria a consagrar o título do brasileiro. Felipe Massa cruzou a linha de chegada e ouvimos o Hino da Vitória. O choro estava na portinha. "Faltam 3 curvas, faltam 3 curvas!", gritou o narrador. Três curvas para que o ingês, Lewis, permanecesse em 6º.

Mas, na última curva... todo mundo já sabe. Meu irmão fechou o celular, meu pai foi ao banheiro e minha mãe ficou com medo da gente ter um treco. Eu continuei estático em frente à tevê, não acreditando no que via.

É estranho o que o esporte nos faz. Natural seria que aquele meu choro, que estava na portinha, em lugar de emocionado, saísse motivado pela tristeza. Mas não. A ida do meu pai ao banheiro, a mensagem ao meu irmão que deixou de ser enviada e a preocupação de minha mãe juntaram-se em algo que não sei bem definir. Juntaram-se a tudo o que havia acontecido tão intensamente naquele final de campeonato. Nas minhas lágrimas, que não sabiam para onde ir, juntaram-se também e formaram uma imensa bola que se entalou em minha garganta. Como uma bola de pêlo na garganta de um gato.