28 de outubro de 2008

O estandarte do sanatório

Um vento fraco, vindo da única porta aberta, bela porta, aliás, de madeira antiga, atingiu meu rosto. Olhei para mamãe. O ambiente não estava agradável. Uma pequena fresta nos dava a visão parcial da sala do delegado, de sua calvície e eloqüência ao falar. A água, no copo repousado à mesa, trepidava. O céu azul, infinito, mostrava-se pela porta, mas não era capaz de iluminar a delegacia, soturna e trêmula, improvisada em um prédio municipal, no 6º andar. A porta aberta, então, era somente um quadro. Um imenso azul estático, complacente e inútil.

Segurei as mãos de mamãe e perdi o olhar na direção da porta quase encostada. Jamais conseguiria reconhecer a voz de quem depunha. Do lado oposto ao quadro azul, imerso na penumbra da sala, notei um homem. Afundado no sofá, meio sentado, meio deitado, muito tenso, martelava o médio e o indicador no couro desgastado. De onde estava, o quadro azul tinha também uma mureta, da sacada, verde de mofo, e o topo da torre de uma tradicional igreja. Sem dúvidas, ali, o centro da cidade era peculiar. Uma gota de suor, trepidando no ritmo da água do delegado, 
escorreu em minha têmpora. Mamãe secou-a. Estava impaciente. A pouca luz e o burburinho que vinha da sala da autoridade davam a mim, à mamãe e ao desconhecido, a desesperança. O tédio.

Suavemente, uma música começou a ser tocada e, incompreensível, misturou-se somente ao burburinho. À esquerda, olhei, a escrivaninha da secretária permanecia desocupada. De onde viria a música? Quis ignorá-la e voltar a somente observar o subir e descer do negro bigode do delegado. Não consegui. A música foi, gradativamente, aumentando. Como que pensando na mesma coisa, olhamo-nos, simultaneamente, eu e mamãe, e ela disse-me: “É Chico, filho, é Chico!”, sorriu-me amavelmente e beijou minha mão, segurando-a com ardor.

A música era um samba, entretanto. Inspirava amor, sim, mas podia inspirar mais. Aliás, um beijo na mão não duraria nem amenizaria todas as horas que me aguardavam naquela delegacia. Faltava algo. Olhei ao homem do sofá. Meio sentado, meio em pé, batucava já todos os dedos da mão e, ao me ver, levantou-se e bateu palmas, acompanhando o samba. Sua primeira palma, logo a primeira, maestrina, soou como uma permissão à festa. A música atingiu o seu som máximo, mamãe puxou-me e, em pé, levantou os braços e libertou um longo sorriso. O homem também sambou, batucou, olhou-nos alegremente e nossos passos acelerados, ritmando a alegria, decretaram o Samba do Quadro Azul. “É samba novo dele”, disseram. E da sacada, daquele azul vertical que tudo iluminou, “dali deve vir a música”, apareceu um sem-número de pessoas, ao samba, aos passos e sorrisos. Mulheres, homens, raças e religiões entrando, pela sacada, na delegacia, sambando a música que tocava altamente. Batuque rimava com batuque que rimava com batuque e mais pessoas chegavam. Batuque rimava com batuque que rimava com batuque e a cerveja e a cachaça chegaram também. Batuque rimava com batuque que rimava com batuque e o delegado saiu da sala, alegre, cantando e dançando, desengonçado, embriagado pelo inusitado. Batuque rimava com batuque que rimava com o canto ao Buarque, boa arte, êxtase total. “Tragam as taças!”, disse uma voz entre as centenas. Trouxeram as taças, era o brinde. Com a velha água, o delegado tomou a iniciativa, levantando o copo com a mão esquerda. A água trepidava, trepidava, trepidava, batucava, batucava, batucava. À sua frente, uma senhora ruiva, gorda e baixa, levou, em tempo, a cachaça ao delegado. Este a pegou com uma mão, mas, distraidamente, com a água arrepiada no copo, permaneceu com a outra levantada. Por trás, “olhe lá a mamãe, apareceu!”, mamãe pegou o copo d’água, assim mesmo, no ar, e, decretando o brinde, encharcou a calvície da autoridade.

Um comentário:

Victória disse...

Já ia te dizer que isso tinha ficado a esmo, quando me surpreendi.
por sinal, adorei! Muito bom!

De sua autoria, ou daquele livro que você tá lendo sobre o Chico?

um beijo.