13 de outubro de 2008

Dinheiro

"A 'ordem' social injusta é a fonte geradora, permanente, desta generosidade que se nutre da morte, do desalento e da miséria."
Paulo Freire.
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A empresa de turismo tomava os cuidados para que não houvesse contato entre seus passageiros - estudantes e da elite paulista - e a população da cidade que visitavam, na Bahia. Além de um forte esquema de segurança, embutiam nos jovens a falsa idéia de que os nativos da Bahia eram, em sua totalidade, brutos e interessados em prejudicá-los, através de ciladas ou de vendas enganosas aos turistas, caracterizando a trapaça.

Sentados na sarjeta, cinco estudantes chupavam sorvete de uma sorveteria indicada pela empresa, e, ao seu redor, em pé, outros tomavam água de coco. Eis que apareceu um garoto. Cinco anos, roupas velhas, sujas, e aparentando felicidade. Era negro e muito pobre, o que era exceção entre aqueles turistas. Era o famigerado nativo. O menino, a exceção dentro da exceção, sentou-se em frente à sarjeta e disse: "Eu canto uma música, me dão dinheiro?", e começou a cantar uma música bela, de amor. Rapidamente, muitos se juntaram à volta do garoto, para ouvi-lo. Em contato com um nativo, não sabiam como agir. Em um início de comoção com o canto, um abraço no moleque lhes faria bem. Mas se era nativo, não poderia haver aproximação alguma. Aliás, somente um tipo de relação aconteceria. A que, para eles, mostrava-se mais eficaz durante a vida. Moedas voaram em direção ao garoto.

Uma menina, em pé, atrás dos estavam sentados na sarjeta, chorou de emoção e jogou ao garoto uma nota de dois reais. Os sentados jogaram também suas moedas e notas. A menina chorou mais e jogou uma nota de cinco. "Ô, Madalena, também não é assim...", advertiu sua amiga. "Esse dinheiro não me fará falta... que vá a quem precise!", respondeu triunfante. Moedas voaram.

Atrás do garoto, sugestivamente em pé, um estudante não deu dinheiro, mas bateu palmas efusivamente. Outro, foi além do comum e comentou em voz alta: “Como há gente talentosa!” e, em seguida, brincou: "Quero ser empresário dele". Moedas voaram. Outro ainda se mostrou extremamente preocupado com o moleque: “Ele não deveria estar na escola, meu Deus?”, indagou gritando. Todos seguiam desta maneira até que um jovem destoou da cordialidade. Em uma atitude de mau gosto, fez gesto de oferecer um cigarro ao menino, mas foi advertido rispidamente pelo futuro empresário: “Cigarro não!". Realmente... Seria melhor dar dinheiro.

Um comentário:

Gabriela disse...

"respondeu triunfante". Essas pessoas, heim Pedrinho! Hahaha