18 de outubro de 2008

A contramão

Subia eu na contramão. A mão era dupla, mas às seis e meia da manhã, trabalhadores e trabalhadoras desciam em direção às casas em que iniciariam mais um dia de trabalho. “Bom dia”, “bom dia”. “Bom dia”, “bom dia”, a cada momento em que eu passava ao lado de um trabalhador: eles a pé, eu de bicicleta, eles descendo e eu subindo a longa calçada. Quem descia, havia saído dos ônibus, com certeza. Quem subia, dependia bastante. Eu, por exemplo, ia à escola, dispensara automóveis a minha disposição e optara pela atividade física. Mais à frente de minhas pedaladas, havia uma mulher de uns 50 anos ouvindo calmamente algo em seu fone de ouvido e levando, mais à frente de seus passos, um cachorro poodle.

“Ô mulherzinha má educada!”, e passou o homem por mim, descendo. “Bom dia”, falou a tempo. Ele acabara de passar ao lado da mulher e, suponho, em resposta ao seu sagrado “bom dia”, recebera o silêncio. “Encontros e Despedidas deve estar muito alto nos fones”, pensei, já longe do sujeito. Longe do sujeito e próximo do seu desafeto. As pedaladas da minha bicicleta levavam-me à proximidade da tal senhora má educada. Resolvi que lhe dedicaria “bom dia”, como fez o outro, para observar se responderia. Sem resposta, o papel dos fones seria comprovado.

Doeram minhas pernas. A subida acentuara-se e, naquele ritmo, não teria sequer fôlego para dizer as poucas palavras à dona do poodle, a três metros de mim. A solução seria trocar a marcha da bicicleta. Sem suavidade, fi-lo: “trrachhhhttrrrraachh”. Não que fosse tão alto o barulho, mas por ser semelhante a algo que se ouve em armas de fogo, a senhora olhou-me instantaneamente com imenso pavor. Não era uma arma, era somente uma bicicleta, desde que não a atropelasse. Apertou os passos e voltou a olhar adiante, sem nada dizer.

Finalmente cheguei ao seu lado. O teste já havia sido feito, mas não pude, por educação, abrir mão do “bom dia”. “Bom dia”, disse à senhora. Forçando uma voz grossa e firme, respondeu de maneira ríspida: “bom dia”. Estranhei sua conduta. Sem saber o que levava em meus bolsos, acredito que a senhora quis me impressionar e, já à frente dela, percebi que puxou a coleira de seu poodle. Ela estava assustada e o cachorro rosnou para mim.

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