24 de setembro de 2008

Planeta Terra, 24 de setembro de 2008.

Prezado arqueólogo do futuro,
Que língua devo utilizar na comunicação com você? Terá a sociedade em que você vive os mesmos padrões de linguagem que a minha? Realmente não posso saber. É difícil, para mim, decifrar se esta carta será lida daqui a mil ou dois mil anos, e quais serão os costumes dos seres humanos nesse momento. Escrevo, pois, com a angústia de imaginar todas estas minhas palavras, escritas com pesar, figurando a você como em um poema concreto. Ora, veja só! Saberá você o que é um poema concreto? Não, não há dúvidas, terei dificuldades.

Se algo de útil posso lhe adiantar, adianto que a sociedade em que vivo está um caos. Agorinha mesmo posso olhar, pela janela de minha casa, o ar que respiramos. Deveria ser invisível, como julgo que, neste momento, é para você. Mas, por aqui, o ar é turvo. Isso acontece porque temos muitas máquinas trabalhando. Máquinas são coisas sem vida, que se movimentam produzindo objetos que usamos em nossas vidas. Porém, liberam um ar preto para se movimentarem. Isso prejudica a saúde do ser humano. Entretanto, essas tais máquinas não cessam, pois têm donos e seu funcionamento faz com que esses donos ganhem muito dinheiro. Dinheiro, pasme, é um papelzinho de nada, mas que serve para tudo, até mesmo para que possamos nos alimentar. O maior problema é que, hoje em dia, estes papeizinhos fazem pessoas, que os têm aos montes, se julgarem superiores às que não os têm. É confuso, de fato. Não se chateie se não entender minha sociedade. Eu mesmo tenho dificuldade em entendê-la.

Por isso, em meu primeiro parágrafo, citei “mil ou dois mil anos”. Daqui a cem ou duzentos anos, pouco mudará o planeta Terra. Entretanto, com este ar preto, o meio ambiente não agüentará mais do que este período. Tudo entrará em colapso. Aliás, a você, tudo já entrou em colapso há alguns séculos e, somente agora, a vida dos seres humanos se restabelece. É triste, mas o atual ser humano é incapaz de, às futuras sociedades, reservar um tempo de futuro (saudável) maior do que o que ele próprio viverá. Saiba, meu caro, somos, aqui, bastante egocêntricos. E aquele tal papelzinho, o dinheiro, nos é importante em demasia.

Vivo em uma sociedade convencionada em padrões comuns. Cumprimos rigorosamente o que denominamos “rotina”. Trata-se de uma seqüência de tarefas diárias que deve, por nós, ser respeitada de modo repetitivo e irrevogável. Assim, cada vez mais, somos privados do bom da vida, ou seja, aquilo que fazemos de modo espontâneo e não como máquinas. Pois se há um fato consumado nessa minha sociedade é que a rotina nos transforma em máquinas. Lembra-se delas? Lembra-se de que não possuíam vidas? Pois, então. Tenho uma teoria de que a rotina, na verdade, nos tira a vida. Pensei em colocá-la em papel, mas as coisas por aqui são burocráticas. Para se aprovar uma teoria há de se ter muita espera. A rotina em velocidade frenética e a burocracia em velocidade de tartaruga. Entretanto, a burocracia faz parte da rotina dos seres humanos que aqui vivem. É tudo muito paradoxal.

Talvez seja inútil me alongar em teorias por aqui, com alguém que sequer conheço e mal consigo prever o estilo de vida que leva. Teria o maior prazer de tê-lo ao meu lado nesse momento, para, aí sim, podermos conversar filosoficamente. Mas, veja, meu caro, desembestei a escrever coisas demais. Como garantir que você sabe o que é cerveja, bar, burocracia ou teoria? Afinal, tantos anos se passaram do colapso. Seria mais correto, talvez, escrever-lhe um calhamaço, cheio de dicas à sobrevivência no seu ano 3000 ou 4000 e pouco. Pois, no seu caso, arqueologia deve ser estudo de sobrevivência, recuperando os antigos conhecimentos, não é mesmo?

Repare que dispensei, por aqui, a formalidade. Tratei-lhe por você e, até mesmo, por “meu caro”. Fiz-lhe perguntas como se estivesse a conversar com você, dispensando a formalidade da escrita. Quem sabe isso eu possa ter lhe transmitido. Dispense formalidades para evitar um novo colapso. Construa amizades, assim como construí com você. Converse mais do que escreva, pois, por aqui, em uma conversa, há muito da formalidade escrita. Há muita distância entre os seres humanos! Há mesmo de se colapsar tudo. Aliás, já colapsou, não é mesmo? Tenho certeza. A fumaça preta nos sufoca lá fora e muitos seres humanos preocupam-se com pormenores. Crianças crescem em um mundo que entrará em colapso e, trancados em salas, professores e intelectuais debatem coisas como a colocação do pronome oblíquo. Me diga, amigo, não é um paradoxo? Não é algo além e mais soturno do que um poema concreto?

Anônimo.

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