16 de setembro de 2008

Cabeleleleleleleiro

Sentei na cadeira, para o corte. Já estava irritado, mas, é claro, não transparecia. Nunca tinha visto o sujeito na minha vida, não era seu cliente. Se ele falasse bastante, mas de futebol, sem problemas. Mas oscilar por assuntos tão diversos em relação à minha pessoa foi me deixando um pouco impaciente. Começaram as tesouradas. Cada uma correspondia a uma pergunta: "Já faz a barba? Vai ficar grosso o pêlo...", "Namora? A mãe não deixa?", "Já dirige?".

Tem gente que fala muito e é simpática. Tem gente que fala muito e incomoda. "Você já sai?". "Como assim?", respondi. "Balada". "Ah, de vez em quando." Eu juro que, até então, minhas respostas não eram grosseiras e nem mais curtas do que as perguntas dele. O diálogo se correspondia em extensão e conteúdo. Só queria fazê-lo enxergar que, na verdade, eu não queria conversar. "Vai se alistar, ano que vem?", perguntou sabendo que eu tinha 17 anos. Resolvi começar a ser mais ríspido: "Vou fazer 18, ué!", respondi. "Quer pegar exército?", perguntou. "Eu não!". "Você tem altura, sabia?". Maldito! Por mais que eu respondesse curto e grosso, ele sempre falava por último, num comentariozinho que beirava a arrogância. O momento já era daqueles em que percebemos que realmente estamos irritado. Notei aquela cólera no mindinho do pé esquerdo e finalmente o sujeito deu uma trégua, quem sabe percebendo minha indisposição. Uns 20 segundos e voltou a perguntar um monte. Com respostas cada vez mais curtas de minha parte, recebi este comentário: "Pelo jeito você não gosta de falar." Não que fosse a gota d'água, pois era o jato d'água, mas respondi: "ou você que fala demais."

Pronto, o clima pesou, pensei. Imagina! A pessoa que fala muito nunca percebe críticas nas falas dos outros. Devia ter feito uma reclamação por escrito. "É que, hoje em dia, o cabeleireiro tem que falar com o cliente. Para conhecer, ver a personalidade. Senão o cliente não volta, como você, da primeira vez. É um jeito de ganhar cliente." Imediatamente formulei uma resposta em minha cabeça: "ou de perder cliente", diria eu. Mas receei, temi um clima ainda mais pesado. "Tem certeza?", cutuquei mais de leve. A partir de então, ele se tocou. Não totalmente. Deu palpites no meu cabelo, falou sobre uma possível calvície, criticou o creme que uso. Mas perguntava com menor freqüência.

Finalmente estava acabando e o alívio chegaria. Pois quando já estava com o dinheiro na mão, para pagar e ir embora, veio um toque final no cabelo, sincronizado com um comentariozinho que, confesso, deixou-me derrotado no duelo de palavras. O maldito cabeleireiro olhou calmamente, pelo espelho, em direção a mim. Baixinho, baixinho, calminho, calminho, disse: "Imagina esse Pedro bravo..."

4 comentários:

Daniel Serrano disse...

haha. muito bom!

Victória disse...

Hahaha.... consigo imaginar a sua cara de impaciente e não poder levantar da cadeira e ir dar uma refrescada na cabeça depois de tantas perguntas.

Mas quanto ao comentário final do nosso bom cabelereiro, você poderia ter respodido como em dias de poucos amigos, naquele seu tom ríspido: "Nem queira imaginar esse Pedro bravo senhor!"

Ai eu queria realmente ver a cara do homem!

Marco Antônio de Araújo Bueno disse...

Pedro, atenção: isso é um conto! E saboroso pela tensão que vai construindo. Só uma coisa me preocupa: o que o verborrágico gajo sugeriu-lhe para a calvície?
Abraços

PS.: Ai que saudades daquele quadro cômico do Dr. Saraiva que o Francisco Milani fazia...

Eric Rocha disse...

ótimo texto pedro!
e o pior: meu cabaleireiro talvez seja o mesmo que o seu.