28 de setembro de 2008

Esqueçam tudo o que eu escrevi

-- Mas como isso é lindo, não? Que país, meu Deus! Pena que está em más mãos...

As duas senhoras, que estavam com o neto, não ligaram muito para o comentário. Uma delas, em cima de um banco, continuava a aventura de colher jabuticabas. A outra, no chão, comendo as que estavam em um saco plástico, olhou ao neto e disse disfarçadamente: "Lá vem falar mal do nosso Lula...". Chupou uma jabuticaba e cuspiu a casca no chão. Os três responderam algo como "esse país é mesmo fantástico.", em tom simpático. O clima estava perfeito, assim como o humor e as frutas.

-- Porque se formos para a Europa... É outra história! Lá as coisas funcionam, sabe? E esse país lindo... Terra boa, fruta boa, sol bom... Assim em más mãos! Além de um povinho que nos decepciona, não é mesmo... -- insistiu a tal mulher, que tinha mais de cinqüenta anos, pele bastante branca e cabelos morenos. Ela entrara em cena justamente em um momento sublime, em que o trio familiar degustava as frutas à sombra da árvore.

Os três puderam saber, ao longo de uma conversa entrecortada por deglutições, que a filha da mulher morara na Inglaterra e que seu genro, que a acompanhava à distância, era belga. Coincidência, aliás. Uma das avós havia comentado, minutos antes, o quanto um estrangeiro ficaria admirado com tamanha beleza das jabuticabeiras.

"Seres vivos desta cor, grudados em um pau, à serviço de sua vontade... talvez isso a estimule a dar com a língua nos dentes", pensou, de maneira exagerada, o adolescente em relação à mulher. Realmente era ela do tipo que discrimina estratos bancários ou ausência de diplomas, mas o pensamento fora por demais cruel. À atitude preconceituosa, que bulia com seus pensamentos, decidiu, entretanto, estabelecer uma indiferença cordial. Subiu na árvore e, comendo, ouviu:

-- Você pretende prestar o quê para faculdade, meu bem?

-- Ciências Sociais -- respondeu, sorrindo.

-- Ah, mas é disso que o país precisa! -- disse a mulher, em tom aprovador.

-- De FHC, senhora?

25 de setembro de 2008

O último texto por mim postado não foi feito especialmente para o blog. Foi uma redação para a escola que, por ter gostado, coloquei aqui. O tema era uma carta ao arqueólogo do futuro. Justamente por ter gostado da idéia, nem me liguei nas chatices que o vestibular nos obriga a cumprir. Viajei à vontade no assunto proposto. A professora me compreendeu e também mandou para aquele lugar as determinações vestibulísticas.

Só peço desculpas pelo tamanho do texto. Se fosse em outro blog, uma postagem tão grande acho que nem eu teria paciência para ler.

Mas leia. Vale a pena.

24 de setembro de 2008

Planeta Terra, 24 de setembro de 2008.

Prezado arqueólogo do futuro,
Que língua devo utilizar na comunicação com você? Terá a sociedade em que você vive os mesmos padrões de linguagem que a minha? Realmente não posso saber. É difícil, para mim, decifrar se esta carta será lida daqui a mil ou dois mil anos, e quais serão os costumes dos seres humanos nesse momento. Escrevo, pois, com a angústia de imaginar todas estas minhas palavras, escritas com pesar, figurando a você como em um poema concreto. Ora, veja só! Saberá você o que é um poema concreto? Não, não há dúvidas, terei dificuldades.

Se algo de útil posso lhe adiantar, adianto que a sociedade em que vivo está um caos. Agorinha mesmo posso olhar, pela janela de minha casa, o ar que respiramos. Deveria ser invisível, como julgo que, neste momento, é para você. Mas, por aqui, o ar é turvo. Isso acontece porque temos muitas máquinas trabalhando. Máquinas são coisas sem vida, que se movimentam produzindo objetos que usamos em nossas vidas. Porém, liberam um ar preto para se movimentarem. Isso prejudica a saúde do ser humano. Entretanto, essas tais máquinas não cessam, pois têm donos e seu funcionamento faz com que esses donos ganhem muito dinheiro. Dinheiro, pasme, é um papelzinho de nada, mas que serve para tudo, até mesmo para que possamos nos alimentar. O maior problema é que, hoje em dia, estes papeizinhos fazem pessoas, que os têm aos montes, se julgarem superiores às que não os têm. É confuso, de fato. Não se chateie se não entender minha sociedade. Eu mesmo tenho dificuldade em entendê-la.

Por isso, em meu primeiro parágrafo, citei “mil ou dois mil anos”. Daqui a cem ou duzentos anos, pouco mudará o planeta Terra. Entretanto, com este ar preto, o meio ambiente não agüentará mais do que este período. Tudo entrará em colapso. Aliás, a você, tudo já entrou em colapso há alguns séculos e, somente agora, a vida dos seres humanos se restabelece. É triste, mas o atual ser humano é incapaz de, às futuras sociedades, reservar um tempo de futuro (saudável) maior do que o que ele próprio viverá. Saiba, meu caro, somos, aqui, bastante egocêntricos. E aquele tal papelzinho, o dinheiro, nos é importante em demasia.

Vivo em uma sociedade convencionada em padrões comuns. Cumprimos rigorosamente o que denominamos “rotina”. Trata-se de uma seqüência de tarefas diárias que deve, por nós, ser respeitada de modo repetitivo e irrevogável. Assim, cada vez mais, somos privados do bom da vida, ou seja, aquilo que fazemos de modo espontâneo e não como máquinas. Pois se há um fato consumado nessa minha sociedade é que a rotina nos transforma em máquinas. Lembra-se delas? Lembra-se de que não possuíam vidas? Pois, então. Tenho uma teoria de que a rotina, na verdade, nos tira a vida. Pensei em colocá-la em papel, mas as coisas por aqui são burocráticas. Para se aprovar uma teoria há de se ter muita espera. A rotina em velocidade frenética e a burocracia em velocidade de tartaruga. Entretanto, a burocracia faz parte da rotina dos seres humanos que aqui vivem. É tudo muito paradoxal.

Talvez seja inútil me alongar em teorias por aqui, com alguém que sequer conheço e mal consigo prever o estilo de vida que leva. Teria o maior prazer de tê-lo ao meu lado nesse momento, para, aí sim, podermos conversar filosoficamente. Mas, veja, meu caro, desembestei a escrever coisas demais. Como garantir que você sabe o que é cerveja, bar, burocracia ou teoria? Afinal, tantos anos se passaram do colapso. Seria mais correto, talvez, escrever-lhe um calhamaço, cheio de dicas à sobrevivência no seu ano 3000 ou 4000 e pouco. Pois, no seu caso, arqueologia deve ser estudo de sobrevivência, recuperando os antigos conhecimentos, não é mesmo?

Repare que dispensei, por aqui, a formalidade. Tratei-lhe por você e, até mesmo, por “meu caro”. Fiz-lhe perguntas como se estivesse a conversar com você, dispensando a formalidade da escrita. Quem sabe isso eu possa ter lhe transmitido. Dispense formalidades para evitar um novo colapso. Construa amizades, assim como construí com você. Converse mais do que escreva, pois, por aqui, em uma conversa, há muito da formalidade escrita. Há muita distância entre os seres humanos! Há mesmo de se colapsar tudo. Aliás, já colapsou, não é mesmo? Tenho certeza. A fumaça preta nos sufoca lá fora e muitos seres humanos preocupam-se com pormenores. Crianças crescem em um mundo que entrará em colapso e, trancados em salas, professores e intelectuais debatem coisas como a colocação do pronome oblíquo. Me diga, amigo, não é um paradoxo? Não é algo além e mais soturno do que um poema concreto?

Anônimo.

19 de setembro de 2008

Miúcha e os Cariocas

Foi fantástico o show ontem. Confesso que quase nada conhecia dos Cariocas, e gostei muito. Quanto à Miúcha, foi um espetáculo. Uma presença de palco maravilhosa. Mesmo com dificuldade em andar, ensaiava passos simpáticos quando em pé estava, ao ritmo dos giros de sua bengala. Eram duas, três músicas e uma história contada pela cantora. Histórias dos anos 50, 60, 70... Ela, Tom, Vinicius e cia andando pelo Rio em vida de boemios.

Certa vez, contou-nos, ao ver a quantidade de chops tomados por eles, Vinicius lhe disse: "Miuchinha, a gente tá bebendo em níveis industriais!". O contato, aliás, desde criança, com Vinicius em sua casa, por este ser amigo de seu pai, estimulou a música na família. E que família! O sobrenome Buarque de Hollanda é abençoado. Um dia, por exemplo, com sua mania de diminutivos, o poetinha disse ao já famoso jovem Chico: "Chiquinho, vamos virar parceirinho?". Saiu, nada mais, nada menos, do que Gente Humilde, interpretada de maneira única por Miúcha ontem. Jamais o último verso da música me foi tão verdadeiro como ouvindo à contora ao vivo.

A única tristeza foi a platéia vazia. Não entendo. Uma cantora e um grupo com tanta história, com tamanha importância musical em nosso país! Talvez tenha sido o preço do ingresso: 80 reais, a inteira. Mas, ao sair do espetáculo, não consigo, eu juro, dizer que estava caro.

16 de setembro de 2008

Cabeleleleleleleiro

Sentei na cadeira, para o corte. Já estava irritado, mas, é claro, não transparecia. Nunca tinha visto o sujeito na minha vida, não era seu cliente. Se ele falasse bastante, mas de futebol, sem problemas. Mas oscilar por assuntos tão diversos em relação à minha pessoa foi me deixando um pouco impaciente. Começaram as tesouradas. Cada uma correspondia a uma pergunta: "Já faz a barba? Vai ficar grosso o pêlo...", "Namora? A mãe não deixa?", "Já dirige?".

Tem gente que fala muito e é simpática. Tem gente que fala muito e incomoda. "Você já sai?". "Como assim?", respondi. "Balada". "Ah, de vez em quando." Eu juro que, até então, minhas respostas não eram grosseiras e nem mais curtas do que as perguntas dele. O diálogo se correspondia em extensão e conteúdo. Só queria fazê-lo enxergar que, na verdade, eu não queria conversar. "Vai se alistar, ano que vem?", perguntou sabendo que eu tinha 17 anos. Resolvi começar a ser mais ríspido: "Vou fazer 18, ué!", respondi. "Quer pegar exército?", perguntou. "Eu não!". "Você tem altura, sabia?". Maldito! Por mais que eu respondesse curto e grosso, ele sempre falava por último, num comentariozinho que beirava a arrogância. O momento já era daqueles em que percebemos que realmente estamos irritado. Notei aquela cólera no mindinho do pé esquerdo e finalmente o sujeito deu uma trégua, quem sabe percebendo minha indisposição. Uns 20 segundos e voltou a perguntar um monte. Com respostas cada vez mais curtas de minha parte, recebi este comentário: "Pelo jeito você não gosta de falar." Não que fosse a gota d'água, pois era o jato d'água, mas respondi: "ou você que fala demais."

Pronto, o clima pesou, pensei. Imagina! A pessoa que fala muito nunca percebe críticas nas falas dos outros. Devia ter feito uma reclamação por escrito. "É que, hoje em dia, o cabeleireiro tem que falar com o cliente. Para conhecer, ver a personalidade. Senão o cliente não volta, como você, da primeira vez. É um jeito de ganhar cliente." Imediatamente formulei uma resposta em minha cabeça: "ou de perder cliente", diria eu. Mas receei, temi um clima ainda mais pesado. "Tem certeza?", cutuquei mais de leve. A partir de então, ele se tocou. Não totalmente. Deu palpites no meu cabelo, falou sobre uma possível calvície, criticou o creme que uso. Mas perguntava com menor freqüência.

Finalmente estava acabando e o alívio chegaria. Pois quando já estava com o dinheiro na mão, para pagar e ir embora, veio um toque final no cabelo, sincronizado com um comentariozinho que, confesso, deixou-me derrotado no duelo de palavras. O maldito cabeleireiro olhou calmamente, pelo espelho, em direção a mim. Baixinho, baixinho, calminho, calminho, disse: "Imagina esse Pedro bravo..."

Mas é cada uma!

Os candidatos a vereador não chegam a ter 10 segundos para a exposição de suas "propostas" no horário eleitoral da tevê. Em meio aos muitos candidatos comuns (pois existem alguns que, mais fodões, provavelmente políticos influentes e cheios da grana, ou suas proles, têm mais tempo na televisão), duas candidatas me chamaram a atenção. Agora não lembro seus nomes, mas lembro o que, de fato, me motiva a escrever aqui: suas palavras.

Candidata 1 - "Contra o preconceito aos homossexuais, o preconceito social e pelos taxistas." Taxistas? O que essa vereadora, se eleita, faria se encontrasse um taxista homofóbico?

Candidata 2 - "Com o povo, pelo o povo e pelos diabéticos." ???. !!!. O começo tava lindo, poético. Mas e esse fim desconexo? Meu Deus!

Estou pensando em me candidatar também. Sem querer copiar a iniciativa tomada pelo blog do meu irmão, Daniel, em que houve o lançamento da candidatura do PQP. Mas acredito que meu poder de oratória poderá convencer eleitores nos menos de 10 segundos. Algo como: "Por moradia, saneamente básico e pelos blogs". Não sei. É só uma idéia ainda, que deverá amadurecer. Aceito Dicas.

14 de setembro de 2008

Seu Jorge

Em tempos de Ivetes e derivados, Chicos, Caetanos ou, mais recente, Marias Ritas não têm o reconhecimento que seus tipos de música teriam há alguns anos. Hoje em dia, a música como arte, como fazem os últimos três citados, é atropelada pela música como mercadoria, como faz a Ivete. O dilema passa a ser: levando em conta a palavra "popular", creu é mais mpb do que Maria Rita? Ou seja, o mercado (a venda) dita a nova mpb, enquanto os verdadeiros artistas, não os vendedores de músicas, com púlbico reduzido, se elitizam em shows mais "vips" do que verdadeiramente populares?

Quanto ao Seu Jorge, me deixa feliz observar, em sua música, público e sucesso que a façam, realmente, poder ser classificada como "popular brasileira". O som é gostoso de se ouvir, o ritmo é envolvente e bastante nacional. Muitas das letras compostas por ele são críticas, caracterizando a inteligência que existe em artistas preocupados com questões políticas em nosso país, com a nossa sociedade. Vejo nele, uma música séria, brasileira, que vende, sim, mas não se produz somente em função da venda, mas em função da arte. E é popular. Consegue essa popularidade sem insultar a verdadeira arte, como fazem muitos "músicos" atualmente.

O CD, da foto acima, dei de presente ao meu pai, no dia dos pais. Um pouco de interesse houve nessa atitude, pois pretendo me aproveitar também deste presente. Será uma maneira de começar a conhecer melhor o trabalho do Seu Jorge, que julgo conhecer muito pouco diante do quanto o admiro.

Hoje, Seu jorge representa a mpb que, para mim, deveria ser predominante.

10 de setembro de 2008

Oi, revolução

Tenho acompanhado, pela televisão, as propagandas desse tal grupo de telefonia celular (que só citarei o nome, apesar de já citado, mediante patrocínio ao meu blog).

Interessante o papo deles. Dizem estar lutando pelos nossos direitos, os direitos dos cidadãos. Nos comerciais, enquanto a voz masculina introduz em nossas mentes o quanto a tal operadora luta por nós, imagens, como diria?, inspiradoras, aparecem. Aquelas imagens que simbolizam conquistas de direitos pela sociedade. Ó, como eles são bons!, devemos pensar. Lutaram pelo tal desbloqueio (não sei exatamente do que se trata, porque não utilizo celular), e hoje ele é obrigatorio. "A sua operadora não desbloqueia seu aparelho? Vem, que a gente desbloqueia de graça.", propagandeiam, não exatamente com essas palavras. É triunfal. Quanta preocupação com a nossa sociedade! Aquele executivo que tem três celulares (um para o trabalho, outro para a família e outro para a amante) nunca deve ter se sentido tão revolucionário! Mas aquele outro, mais pobre, que ainda não pode comprar seu aparelho, também assiste à televisão. Dane-se! Essa empresa é demais. As outras operadoras, claro, ainda vivas, são o ópio do povo. Que lindo!

Oi, revolução, manda um beijo pra demagogia.

7 de setembro de 2008

Esmo rima com...

De cara, gostou do título: ismo a esmo. Deixou, na postagem inicial da recém-inaugurada página, uma mensagem de apoio à iniciativa, refletindo sobre o título escolhido pelo dono do ismo, digo, dono do blog. Citou existencialismo, regionalismo, reformismo e outras tantas palavras terminadas dessa maneira, em um comentário divertido e inteligente, cheio dos trocadilhos acerca do título escolhido.

O esmo estava implícito em todos aqueles ismos, já que estes estavam justamente a esmo no comentário. Porém, faltava escrevê-lo, de fato. Valorizá-lo como palavra que pode viver sozinha, e não somente a dar um não-rumo às coisas, como faz a ismos por aí. Então, logo no final do comentário, citou: “esmo”.

Mas foi pego de surpresa. Não achava palavra no mundo que rimasse com a citada. “Sacanagem, antilirismo!”, saiu-se bem, escrevendo.

Não tão bem se saiu, na verdade. Meteu lá um esmo, mas não achou palavra que rimasse com ele. Rápido no gatilho, meteu um ismo. Ora, já tão citado, veio a reaparecer justamente em um momento em que o propósito era esquecê-lo, valorizar a outra parte do título independentemente desta! Ficou encafifado.

Quando a mãe chegou em casa, matou a curiosidade. A vida inteira pôde ser assim. Tinha dúvida de vocabulário, perguntava à mãe. Às vezes, pergunta fácil, recebia a resposta na bucha. Outras vezes, aquelas perguntas cabeludas, em alguns casos até mesmo constrangedoras, não havia resposta ou, se houvesse, também na bucha, era inventada, o que a criança jamais percebia, é claro.

Desta vez era só uma riminha. Depois de ter criado cinco filhos, a mãe estava experiente e conseguiria com facilidade.

Então, como na infância, recorreu ao seu mais confiável dicionário, a mãe, aquele que acumula palavras há mais de oitenta anos. Aquele que tem todas as palavras para entregá-las aos filhos, quentinhas, quando precisarem:

-- Mãe, com o quê rima esmo?

Com naturalidade, como se já soubesse há anos que esta pergunta lhe seria feita, a senhora respondeu:

-- Filho! Torresmo!

1 de setembro de 2008

Eles continuam torturando (minha mente)

No dia 7 de agosto, houve reunião do Clube Militar, no Rio de Janeiro. O obejtivo dos militares era fazer contraponto ao debate sobre a punição de torturadores, devido aos seus crimes cometidos no período da ditadura militar no Brasil. Atenta-se ao fato de não se oporem somente à punição dos torturadores, mas à discussão sobre o assunto, o que é, evidentemente, antidemocrático.

Rolou de tudo. Especulações e acusações, desde que com habituais preconceitos, eram bem-vindas. Segundo um ruralista, que a eles palestrou, e foi efusivamente aplaudido, o atual governo brasileiro foi o organizador dos ataques promovidos pelo PCC em São Paulo, em maio de 2006. Já passado seus tempos, Dilma Roussef e cia. não pegaram, é evidente, em armas. Segundo o tal ruralista, tudo foi posto em prática com a ajuda dos grupos separatistas ETA e IRA, além das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.

A mesma linha de acusação seguiu o general Coutinho, para quem o atual governo tem uma tática de ocupação do Estado pelo “aparato revolucionário”, abrindo caminho, através, por exemplo, da intenção “revanchista” de se punir os torturadores, à revolução socialista!

Alguém avisa o PSOL, meu Deus! “Helô, Helê, volte ao PT!” — lançarei a campanha.

A melhor definição para o encontro militar, creio, encontrou Leandro Fortes, em matéria à revista Carta Capital. O Salão Nobre do Clube foi transformado, para ele, “numa espécie de hospício para traumatizados da Guerra Fria”. Perfeito.

É justamente esse estado de loucura, resultado de um profundo conservadorismo que, com o passar dos anos, só aumenta, que me faz ter o mais genuíno sentimento de nojo pelo Clube Militar. Esse asco me faz pensar se o mais adequado não seria chamá-lo “clubinho”. E assim farei, doravante: clubinho. Cogitei, admito, chamá-lo Clube do Bolinha, mas clubinho me parece mais apropriado.

Do clubinho, confesso que sinto, no fundo, no fundo, muita raiva também. Muita, muita mesmo. Disse nojo, primeiramente, não só por, de fato, o sentir, mas para explicitar o desprezo ao que julgo tão torpe. Mas tenho muito é raiva do clubinho. Não há dúvidas.

Eles continuam torturando, não há duvidas. No momento, pelo menos, meus miolos.